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19/07/2016

Com medo da Literatura e do espírito da época

 

11.7.16  - Prêmio Rio de Literatura

Muito obrigada. Obrigada à Fundação Cesgranrio e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro pela iniciativa da criação do Prêmio Rio de Literatura.

Obrigada aos conselheiros e jurados; receber este prêmio de vocês, estudiosos reconhecidos da literatura brasileira contemporânea, é, para mim, uma felicidade e uma honra.

***

Comecei a escrever Anatomia do paraíso em 2009; cinco anos depois, em junho de 2014, enviei o romance para a Editora 34 e para amigos.

A história já estava lá:

Félix estuda o poema Paraíso perdido, de Milton, sobre o qual escreve sua tese de mestrado. O poema é descrito e interpretado junto com as percepções de Félix sobre o que lhe acontece: o sexo com algumas mulheres e um homem, a fome, o sol, o sono, a praia, os ruídos do bairro de Copacabana, seus rochedos e as lembranças da adolescência.

Vanda, a outra protagonista, leva Maria Joana, sua irmã de 12 ou 13 anos, para a escola, pega o ônibus, chega ao IML, disseca cadáveres, pega outro ônibus, chega à academia, dá aulas até o pôr do sol, compra alguma coisa no supermercado, prepara o jantar que come com a irmã, conversam, dorme e sonha.

Félix e Vanda têm 22 anos e moram em pequenos apartamentos de um mesmo prédio na rua Francisco Sá.

A história começa com Vanda grávida de mais ou menos 3 meses e termina com ela se despedindo da filhinha recém-nascida e da irmã, para ir prestar o vestibular.

O poema Paraíso perdido é apresentado capítulo a capítulo. No final do livro, Félix consegue terminar a primeira versão de sua monografia.

A terceira personagem, Maria Joana, começa o livro criança e termina adolescente. Apaixona-se por Félix e pela literatura; cresce, ganha corpo e contorno. Depois da desilusão amorosa, vem a solidão e, com ela, uma autonomia cheia de potência criadora.

A ação se desenvolve em 2009, envolta por Copacabana.

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Então, em uma noite, surge um casal de irmãos na rua. O menino negocia a irmã com dois homens que a estupram. Felix assiste à cena.

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A história estava lá. Mas, como fui descobrindo, na conversa com os amigos que liam o livro, ainda frouxa, sem a tensão que deveria ter.

Desde o início sabia estar lidando com dois perigos: a pomposidade e o proselitismo.

Depois de cinco anos de trabalho, várias vezes interrompido, lá estavam eles: a pompa e o proselitismo transformando Vanda em heroína feminista; o poema em uma pregação, as vivências de Félix em ilustrações dos "ensinamentos" de Milton e estes "ensinamentos" em meros desencadeadores das indagações existenciais do estudante.

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Cada capítulo de Vanda funcionava como um pequeno conto, sempre com alguma ação, em geral violenta, motivada por sua intransigência com qualquer tipo de opressão, principalmente aquelas contra mulheres e crianças.

A repetição das ações de Vanda, sem quase nenhum pensamento interior, deveria criar uma mulher dura e correta. Isto foi sendo construído aos poucos, se estabeleceu e estava certo.

Cada capítulo de Félix dependia do anterior e pedia o seguinte. A linguagem do poema de Milton transbordava para a linguagem com que Félix percebia o mundo.

Os arabescos atormentados do entendimento do estudante sobre o Paraíso perdido deveriam, paradoxalmente,  transformá-lo em um ser quase autista, insensível ao sofrimento de seus conterrâneos. O que aconteceu e estava certo.

A partir do capítulo em que a criança é estuprada, aos poucos, o estilo da narrativa de Vanda e Félix se inverte. Começamos a ouvir os pensamentos de Vanda e a vida alcança Félix de dentro para fora; ele, então, vive seu próprio tormento sem a humanidade por companheira.

Tudo em ordem.

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Mas a verdade é que eu não tinha ideia de que haveria o estupro de uma criança no livro. Depois de escrita a cena, sua força foi crescendo e o resto do romance, do começo ao fim, ficou torto, mostrou-se sem verdade. A narrativa de Félix, pomposa, e a de Vanda, militante.

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Escrever o abuso da menina de rua foi das coisas mais intensas que já vivi. Fui todos os personagens: a menina, o menino, os dois homens e Félix. Senti fome, medo, humilhação, ganância, excitação com o sofrimento alheio, prazer na crueldade, gozo, culpa e o sufocamento. É vergonhoso reconhecer isso, são sentimentos escabrosos. Compreender sua existência já é uma violência, reconhecê-los verdadeiramente em mim mesma foi terrível. É vergonhoso dizer isso aqui, mas estamos falando de ficção e de sua especificidade e acredito que faz parte de ser uma escritora de ficção viver inclusive o horror.

Depois de passar por este inferno, e pensar sobre ele, ficou evidente minha covardia nos outros capítulos do livro; a história fraquejava.

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As sugestões e críticas dos amigos me ajudaram a enxergar as armadilhas que criara. No ano que se seguiu, reescrevi o livro inteiro.

Voltei atrás. Mesmo que eu não tivesse me dado conta, já havia construído a possibilidade do gozo de Félix com o abuso da criança desde o início, mas ela estava encoberta pela literatura.

A violência de Vanda com Félix, no Parque Garota de Ipanema, diferente do que eu escrevera, tinha que ser irreversível. Não pela agressividade de Vanda, mas por uma espécie de autismo que ela, diferente de Félix, voluntariamente cultivava para que fosse possível amar apenas quem, de seu ponto de vista, merecia ser amado.

A coragem que tivera com a menina de rua me faltara no confronto com Milton e com o meu tempo, no caso personificado pelo movimento feminista contemporâneo.

Como confrontar-me com a Literatura (com letra maiúscula) e com o espírito da época sem culpa nem punição?

 "Como dizer teu nome sem culpa?", "Como expor-te sem falta?", pergunta Milton a Deus.

Faltou-me a impertinência com a qual o poeta inglês se arma para falar com e de Deus.

"Revejo-te agora com asa mais audaciosa."

Quando entendi meu medo, consegui me aproximar do texto propriamente dito, de seus personagens, e me dedicar a eles sem pudor.

***

A militância feminista, como qualquer militância, tem a urgência de objetivos precisos. Para alcançá-los, as palavras devem ser duras, a ambiguidade abolida, a diferença entre o nós e os outros definida com clareza. Omite-se e exagera-se, há o tempo para se falar isso e não aquilo. O compromisso não é com a busca da verdade, mas com a justiça. Por isso a profundidade e a dúvida precisam ser evitadas, ou usadas apenas como instrumentos de retórica.

A ficção é outra coisa. Nos perdemos, o rumo é incerto, palavras erradas, o fundo nunca é suficientemente fundo para esconder o gozo com a dor alheia, inclusive de crianças. A exposição luminosa do lodo não é retórica, não prova nada, o sexo do homem e da mulher, da adolescente e da menina é confuso, autoritário, medroso, inocente, sem paciência, exuberante. No final de o Paraíso perdido, poema reafirmador da origem mítica de nosso machismo, mulher e homem dão-se as mãos e, com passos incertos e solitários, seguem juntos por um novo caminho.

O respeito por nossas lutas necessárias tornava medíocre a minha história.

***

Milton e seu Paraíso perdido, por que fui escolher esta enormidade? Não sabia direito e até hoje não sei. Mas conforme escrevia, entendi que além de querer falar da relação com a literatura, da intensidade que cada leitura pode nos fazer viver e do prazer de enfrentar o hermético, torná-lo seu, existia também o desejo de falar sobre o que o poema fala: deus, pai e filho, mulher e homem, sexo, machismo, maldade, beleza e morte.

E acredito que foi por isso que convoquei a voz poderosa e antiga de Milton, acima de todos nós, uma voz que nos acompanha há muito tempo sem perder força e atualidade, influenciando nossas obras e o mundo em que vivemos. Criei um estudante para se debater com essa imensidão: a literatura, Milton e seus temas, a diferença das épocas, culturas e idiomas.

Félix precisava tentar fazer uma análise literária de o Paraíso perdido e precisava fracassar. Os temas e as imagens criados por Milton o arrebatavam, sua ânsia por desvendar os mistérios da existência eram maiores do que seu preparo e mesmo interesse acadêmico.

Me dei conta, porém, de que ao não enfrentar o poeta, não havia fracasso, mas desistência antecipada. O que deveria ser luta, transformava-se em medo e preguiça, e Félix, em um personagem simplificado e mais raso do que eu gostaria que fosse.

Era eu, antes de Félix, quem tinha medo do ridículo. Que armas eu tinha para enfrentar Milton? Eu, a escritora?   

Entendi que era exatamente esta a minha arma, não ter nenhuma. Não lera quase nada sobre Milton ou o Paraíso perdido, não estudara quem o estudou. Eu me preparara para, como Félix, estar permanentemente assombrada e perdida frente à obra inglesa do século XVII. Quando comecei a encarar o poema como se eu mesma tivesse a missão de interpretá-lo para escrever um texto acadêmico, quando não conseguia seguir em frente porque o pai e a morte eram maiores do que o próprio poema, sinto que acertei mais o caminho, os adjetivos pomposos que cercavam a linguagem de Félix, e que tanto irritaram Cide, meu editor, deixaram de ser pomposidade, para serem confusão (assim espero). A revisão de Cide em relação a este ponto me ajudou muito a repensar a linguagem exaltada e a mistura entre o narrador, o poeta e o personagem. Entendi melhor o que ajudava a criar o arcaísmo necessário para o mundo enevoado de Félix, e o que era apenas literatice.

***

Neste momento, estava acompanhando a despedida de minha mãe da vida. Junto com meu pai e meus quatro irmãos, relativamente isolados em uma fazenda, ficamos ao lado dela, um, dois ou três meses, cada um na medida de sua possibilidade, diariamente. Conversando com ela, quando dava, outras vezes só ficando ao seu lado, às vezes agradando sua mão, outras lendo em silêncio mensagens no celular ou um livro.

Na mesma época minha neta Lina, então com dois anos e meio, mudava-se com os pais de São Paulo para o Rio. A partida de Lina misturou-se dentro de mim com a despedida de minha mãe e vivi um período de introspeção muito forte. Neste ambiente retrabalhava a parte final de Anatomia do paraíso e, literalmente, estava sem palavras para dar conta do trabalho.

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Não conseguia continuar a revisão após o ponto do abuso da criança de rua. A partir daí os textos de outros autores, que havia inserido na trama misturados com o meu, e que estavam funcionando bem até este capítulo, deste ponto em diante me pareceram estrangeiros. Retirei-os todos. Cortei, apaguei, joguei fora capítulos inteiros, reescrevi, estava mais compenetrada e sentia a história melhorar, mas não achava luz para enfrentar a parte final. Reli Ulisses e A Odisseia. Reli-os pensando no Anatomia e foi impressionante como isso me aproximou dos livros, a leitura e meu prazer com ela fluíam. Mergulhar naqueles mundos, entender a importância do mar nas duas obras, e da morte, das relações familiares e dos deuses, Athena e Shakespeare, as misturas de narradores e mudanças do estilo narrativo, ver semelhanças e dissemelhanças, tudo isso surgia de forma evidente e intensa. Com as palavras dos dois autores entremeadas com as minhas e um contato diário com o que de fato importa na vida, eu consegui terminar o livro.

***

Anatomia do paraíso é dedicado aos meus filhos, Matias, Daniel e Julia. Porque eu os amo, porque ser mãe deles me define, e por causa das muitas conversas que tenho tido com cada um deles sobre assuntos nossos, e muitas vezes sobre assuntos como a morte, a mulher, o homem, deus, o machismo e a política. O envolvimento e a seriedade dos três têm me ajudado manter-me neste mundo de forma, sempre que possível, sincera e inteligente.

O Prêmio Rio de Literatura eu gostaria de dedicar à memória de minha mãe e a minha neta Lina.



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