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Biografias e memórias | História
 

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Páginas de recordações: memórias

 

Floriza Barbosa Ferraz

Chão Editora

Posfácio: Marina de Mello e Souza


288 p. - 15 x 21 cm
ISBN 978-65-990122-2-8
2020 - 1º edição

Nascida em Rio Claro, no interior do estado de São Paulo, em 1874, Floriza Barboza Ferraz fazia parte de uma tradicional família da elite rural paulista. Até o início da adolescência, teve ao lado dos treze irmãos uma vida idílica em meio à natureza, na fazenda do "Pitanga", propriedade dos pais ainda mantida pelo trabalho escravo. Com a Abolição, contudo, o pai de Floriza não se adaptou às novas relações de trabalho e vendeu a propriedade para viver com a família em Piracicaba. Num primeiro momento, a mudança não significou muito para a adolescente, que tinha planos de tornar-se freira. Aos dezenove anos, no entanto, por insistência da família, casou-se por arranjo com Antônio Silveira Corrêa, cunhado de um de seus irmãos. O matrimônio foi uma ruptura radical na vida a que estava acostumada. Três anos mais tarde, Floriza e o marido deixaram o conforto da cidade e embarcaram em um vapor da Companhia Fluvial de Navegação, numa viagem longa e difícil rumo ao então inóspito Oeste paulista. Levavam consigo os dois primeiros filhos (um tinha menos de dois meses e outro, pouco mais de um ano) e uma "menina como pajem". A missão do casal era plantar café na terça parte que lhes cabia de uma propriedade comprada pelo sogro de Floriza. Floriza descreve o lento e árduo trabalho de constituição de sua fazenda do Engenho, no município de Lençóis Paulista - então praticamente uma terra de ninguém -, processo do qual participou ativamente. Com riqueza de detalhes e numa linguagem simples e direta, Floriza relata as dificuldades do desbravamento daquela região na virada do século XIX para o XX, com escassez de médicos e ameaças constantes de incêndios, bandoleiros, cobras venenosas e saúvas; a convivência com as famílias de colonos italianos e espanhóis; o nascimento dos filhos, em casa, em condições muito precárias; a luta, até mesmo física, para manter o lugar social de sua família de origem. Escritas em 1947, aos 73 anos, como simples remédio "para desabafar o coração", sem nenhuma intenção de publicação, estas Páginas de recordações revelam-se um documento histórico ímpar ao registrar, entre outros aspectos, a importância do trabalho feminino na implantação das fazendas de café no sertão paulista. Uma prova de como, no fio do tempo, todo registro particular se torna parte da memória coletiva de um país. Trecho do livro Em 1898 quando completou um ano e três meses que chegamos na fazenda, nasceu o nosso segundo filho. Tínhamos mandado o Thiago irmão de Joaquim Olímpio, que era o nosso pedreiro, fazer um quarto maior que foi inaugurado com o nascimento do nosso filho, por sinal que as paredes ainda estavam úmidas, tanto que num dos cantos, bem no alto, nasceu um pé de milho, e da minha cama eu assistia o seu crescimento, que atingiu a um palmo de altura. Nesse mesmo quarto nasceram mais quatro filhos e foram criados todos, bem juntinhos de nós; ele só tinha duas janelas que davam para o lado do paiol, e na frente deles plantei dois pés de araticum trazidos do mato, e neles eu amarrava os chifres das vacas para tirar-lhes o leite. Sobre Marina de Mello e Souza Marina de Mello e Souza é professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, autora de vários artigos publicados em revistas acadêmicas e de divulgação e dos livros Paraty: a cidade e as festas; Reis negros no Brasil escravista; História da Festa de Coroação de Rei Congo; África e Brasil africano (vencedor do prêmio Jabuti na categoria didáticos e paradidáticos em 2007), e Além do visível: poder, catolicismo e comércio no Congo e em Angola (séculos XVI e XVII). Atualmente faz pesquisa sobre a adoção de elementos católicos e portugueses pelos agentes do poder no Congo, nos séculos XVIII e XIX.


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