Busca rápida
digite título, autor, palavra-chave, ano ou isbn
 
Poesia
 
no prelo R$ 59,00
Avise-me quando disponível

Disponível a partir de 30/05/2026
         




 
Informações:
Site
site@editora34.com.br
Vendas
(11) 3811-6777

vendas@editora34.com.br
Assessoria de imprensa
imprensa@editora34.com.br
Atendimento ao professor
professor@editora34.com.br

Adriano

 

Tatiana Faia


96 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-276-7
2026 - 1ª edição

Em algum momento do século II d.C., o imperador romano Adriano — o mesmo que motivou Marguerite Yourcenar a ficcionalizar suas Memórias — enamorou-se de um rapaz da Bitínia, uma longínqua província do império. Quando, aos vinte anos de idade, Antínoo morreu afogado nas águas do Nilo, Adriano expressou abertamente sua dor e, entre outros gestos, ordenou que sua beleza fosse retratada em milhares de estátuas, das quais cerca de cem sobreviveram até os nossos dias. A paixão, a devoção, a perda, a impossibilidade de resgatar algo que se sabe para sempre desaparecido e, simultaneamente, a necessidade de tecer pactos de sobrevivência com o mundo são inquietações que percorrem as páginas de Adriano, da poeta portuguesa Tatiana Faia, estudiosa da Antiguidade clássica radicada em Oxford, Inglaterra. Combinando lirismo e reflexão, memória e relato, os quatro poemas de fôlego que formam Adriano operam à maneira das camadas de uma escavação arqueológica, na qual a história se descobre atravessada pelas ruas, os lugares e os afetos do presente. É nessa conjunção de tempos que se situa a literatura de Tatiana Faia, capaz de conectar “a melancolia misteriosa e um pouco hostil dos Antigos”, como ela própria diz em seu posfácio, “à alegria de estar vivo aqui e agora”. O resultado é um livro belo e intenso, em que temos a possibilidade — sempre aberta à poesia — de nos percebermos contemporâneos de vozes que soaram décadas ou milênios atrás.


Texto orelha

Existe, num dos principais cemitérios de Lisboa — o dos Prazeres —, uma quantidade considerável de gatos que por lá se passeiam. Gostam de deitar-se sobre tumbas e não parecem ter grande interesse em distinguir entre o que ali pertence ao passado ou ao presente. Paralelamente, em Roma, não muito longe do Panteão, uma outra quantidade de gatos frequenta, dia e noite, o terreno do Largo di Torre Argentina. Caminham sobre as ruínas e sobre o lugar onde, já nos anos vinte do século passado, durante um processo de escavações, uma cabeça colossal e dois braços surgiram do chão, revelando-se a estátua de mármore. Não era Antínoo, mas talvez pudesse ser. Adriano, de desgosto, espalhou dele milhares de estátuas pelo império. Sobreviveu ao corpo a imagem, desdobrando-se em representações que excederam a pedra. Há um Antínoo neste Adriano: descende da estátua, do retrato, da memória. Mistura-se com a neve de Delfos e é visto para lá da névoa de um cigarro que se acende ao longe. Está no terceiro poema do livro — ou estará no livro todo — e nele pode ler-se: “é terrivelmente difícil amar estátuas em ruínas”. Inevitável certa comparação entre escrita e estatuária: a poesia, parente do fragmento, não será logo à partida a ruína de uma frase? Não será um verso a sombra, ou aquilo que resta, do que é dito? Quanto à memória: recordar-se-á, porventura, melhor a estátua decepada, do que a que aparece inteira. Excisões vêm como sinal de finitude, a meio caminho entre vida e epitáfio.
Mas os gatos não querem saber. Assim como caminham nos Prazeres ou em Roma, também em Atenas vagueiam, alheios, supõe-se, a jogos fúnebres ou ao vestígio esboroado dos impérios. Eis o gato da rua Adriano, enleado na rede de um prédio em obras, a ziguezaguear entre turistas: ao felino parece ser-lhe prazeroso caminhar sobre os sinais da derrocada. Lemos, nesse mesmo poema, sobre uma “teimosia de predador” — pertencerá ao gato ou a quem observa o gato? Não será o observador a perseguir as imagens: as imagens é que regressam em cifra. Com cara de animal que passeia, indiferente, pelas ruas com nomes de deuses; ou assumindo a forma de um rádio de bolso, a tocar a canção triste.
“Estive vivo poucas vezes”, terá dito Adriano no fim. Ou é pelo menos assim que Tatiana Faia o lembra, e ela vai fazendo e refazendo a cada poema a memória do imperador, a memória que as coisas têm dele, a dos lugares que os unem — ambos, parece, com uma profunda paixão pela Grécia; ambos, parece, estrangeiros na Inglaterra e ao mesmo tempo parte dela —, e de uma autora que entre os dois faz ponte. Para além do próprio Adriano e de Antínoo, existe neste livro uma outra figura, espécie de pano de fundo a sustentar os versos: Marguerite Yourcenar, que com as suas Memórias de Adriano fez, em 1951, voltar-se o rosto de uma época que há muito enterrara os seus mortos para o rosto do imperador. Um texto que a própria Yourcenar construiu e destruiu, para depois construir outra vez, aproveitando daquilo que fizera apenas alguns vestígios. “Senti prazer em fazer e refazer este retrato de um homem quase sábio”, escreve ela nos “Apontamentos sobre as Memórias de Adriano”, seção final que vem acoplada ao romance e que é parte dele. Não como peça fundamental, mas como peça de ligação. Tal e qual como numa estátua que esteve sepultada e foi mais tarde recuperada à terra, trazendo nela os vestígios que poderão — quem sabe — indicar certos caminhos de regresso ou de avanço. Também Tatiana Faia, neste seu Adriano, oferece, após os poemas, um texto final: que é de estudo e território, peça de junção, um mapa. É lá que ela, ao falar no objeto que aqui está, revelando certos passos da melancolia e convergência, o trata pelo nome. Este é um livro com um nome próprio, como as pessoas, como alguns animais. Torna-se mais vivo também por isso, mais contínuo: “Adriano é tanto um livro sobre pessoas quanto sobre a superação de algumas convenções e limites, desde atravessar a rua até ultrapassar a morte”.

Matilde Campilho


Sobre a autora
Tatiana Faia nasceu em Portugal, vive e trabalha na Inglaterra e, sempre que pode, retorna à Grécia. Estudiosa de literatura clássica, é autora de sete coletâneas de poemas e um livro de contos. Traduziu para o português os Hinos homéricos, várias obras de Anne Carson, O monograma, do Prêmio Nobel Odysseas Elytis, Fílon de Alexandria e Bartleby, de Herman Melville. É uma das editoras da revista online e editora independente Enfermaria 6. Adriano foi publicado pela primeira vez em Portugal em 2022, na Grécia em 2023 e na Itália em 2026.


Veja também
Alma corsária
Jóquei
Flecha (histórias)

 


© Editora 34 Ltda. 2026   |   Rua Hungria, 592   Jardim Europa   CEP 01455-000   São Paulo - SP   Brasil   Tel (11) 3811-6777 Fax (11) 3811-6779