Teatro russo:
percurso para um estudo da paródia e do grotesco
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Arlete Cavaliere
384 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-193-7
2024
Conhecida por manter uma longa tradição literária, a Rússia também tem no teatro uma de suas mais importantes manifestações artísticas. Neste livro, ao longo de oito ensaios críticos, Arlete Cavaliere, professora titular da USP, nos apresenta um panorama temático do teatro russo visto pelo original prisma da paródia e do grotesco.
Partindo de uma série de análises aprofundadas da obra dramática de Nikolai Gógol, fundador de toda uma tradição satírica — em especial em suas peças O inspetor geral (1836), O casamento (1842) e Os jogadores (1842) —, a autora passa então a traçar a influência dessa estética sobre a dramaturgia do teatro russo moderno.
Isto se dá em ensaios sobre o percurso artístico de Anton Tchekhov, das pequenas farsas do início de sua carreira aos dramas tragicômicos que hoje integram o repertório universal do teatro, como A gaivota (1896) e O jardim das cerejeiras (1904); sobre as flutuações entre o moderno e o tradicional no teatro simbolista, com uma leitura perspicaz do drama lírico Balagántchik (1906), de Aleksandr Blok; e sobre os usos da dicotomia sério-cômico nos experimentos futuristas de Vladímir Maiakóvski, ápice do teatro soviético de vanguarda.
Sem restringir-se ao aspecto puramente literário dessas obras, a autora inclui em seu itinerário crítico análises das encenações visionárias de Stanislávski e Meyerhold, usando-as também como fios condutores de seu estudo.
Esta nova edição de Teatro russo, ricamente ilustrada, traz ainda um ensaio sobre a cena russa contemporânea centrado na obra de Vladímir Sorókin, autor da polêmica peça Dostoiévski-trip (1997) e um dos grandes nomes do pós-modernismo na Rússia.
Texto orelha
Após situar, no âmbito do teatro russo de Gógol a nossos dias, paródia, estilização e grotesco, e conceituar esses e outros procedimentos de acordo com os teóricos que mais os aproximam do uso que deles faz o teatro (entre muitos, Tyniánov, Linda Hutcheon e Bakhtin para a paródia, Meyerhold para o grotesco e para a estilização), Arlete Cavaliere parte, e nós com ela, para a prazerosa viagem ao encontro das mais famosas peças do repertório russo. Depois de passar em revista, em todas as peças de Gógol, das mais às menos conhecidas, os vários tipos de riso “fio condutor de todos os seus textos teatrais, que vai como que alinhavando cenas e atos, personagens e diálogos, segundo um movimento dialético — no qual imagens carnavalizadas ligadas a um sistema de uma cultura cômica popular [...] contrastam, de forma extraordinária, com um universo dramático aparentado ao trágico” — penetramos no universo de Tchekhov — “poeta da passagem”, segundo Vittorio Strada e “poeta da linguagem”, segundo Maiakóvski — e acompanhamos a encenação de suas peças no Teatro de Arte de Moscou com Stanislávski e, em seguida, com Meyerhold, seu antigo aluno, no Tea-tro-Estúdio de Moscou. Em São Petersburgo somos apresentados ao grupo simbolista na “Torre” de Ivánov e no Teatro da grande atriz Vera Komissarjévskaia, onde são encenadas, entre outras, as peças de Aleksandr Blok, e chegamos, enfim, a Maiakóvski e ao Teatro Russo de Vanguarda. Trata-se de um percurso singular que nos faz desaguar, ao final do livro, nas águas turvas e profundas da cultura russa contemporânea, tendo como guia a crítica ferina do teatro de Vladímir Sorókin, um dos mais expressivos escritores da atualidade e do pós-modernismo russo. E temos, assim, acesso privilegiado ao espaço de “uma outra verdade, sancionada por uma outra lógica e uma outra razão, fundamento essencial, aliás, da arte, no mundo moderno e contemporâneo”. Aurora Fornoni Bernardini
Sobre a autora
Arlete Cavaliere é professora titular de Teatro, Arte e Cultura Russa no Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP. Com colegas da universidade organizou a revista Caderno de Literatura e Cultura Russa (2004 e 2008) e os livros Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental (Humanitas, 2005) e Teatro russo: literatura e espetáculo (Humanitas, 2011). É autora de O inspetor geral de Gógol/Meyerhold: um espetáculo síntese (Perspectiva, 1996) e Teatro russo: percurso para um estudo da paródia e do grotesco (Humanitas, 2009). Publicou diversas traduções de autores russos, como Gógol, Tchekhov, Maiakóvski e Vladímir Sorókin, além de escrever, para a Editora 34, o texto de apresentação dos Clássicos do conto russo (2015) e organizar a Antologia do humor russo (2018).
Veja também
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