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Onde o vento faz a curva

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Disponível a partir de 29/05/2026

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Onde o vento faz a curva

Estelle-Sarah Bulle

Tradução de Letícia Mei

288 p. — 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-281-1
2026 — 1ª edição

Na sua família, é Antoine quem dá as cartas. Com seu nome escolhido para confundir os maus espíritos, suas crenças insólitas e seu senso de independência, é ela a mais indomável de três irmãos — Lucinde e o caçula nunca ousaram enfrentá-la. Sua memória é como uma fonte inesgotável de histórias. É a ela que recorre sua sobrinha, jovem nascida na periferia de Paris, às voltas com sua identidade mestiça, para conhecer um pouco mais do seu passado.

Percorrendo cenas de infância no longínquo vilarejo de Morne-Galant, na ilha de Guadalupe, passando pelos encantos e adversidades da vida em Pointe-à-Pitre, pelo comércio no mar do Caribe e pelo inevitável exílio na metrópole francesa, Antoine recompõe, ao longo de conversas instigantes, a história de sua família e a do próprio país caribenho nos séculos XX e XXI.

Com prosa fluida e intensamente romanesca, mesclando francês clássico a expressões crioulas, Onde o vento faz a curva, que chega ao Brasil na saborosa tradução de Letícia Mei, esboça um retrato sensível de toda uma geração de antilhanos que se reinventa na fronteira entre dois mundos.

Estelle-Sarah Bulle nasceu em Créteil, na França, filha de pai guadalupense e mãe franco-belga. Onde o vento faz a curva (Là où les chiens aboient par la queue, prêmios Stanislas, Carbet e Eugène Dabit em 2018) é seu romance de estreia, ao qual se seguiram dois outros romances e o ensaio autobiográfico História afetiva dos meus cabelos (2025).


Texto orelha

Ao compor essa espécie de diário coletivo, os fios utilizados por Estelle-Sarah Bulle neste que é seu primeiro romance se cruzam para desvelar as tramas tecidas pelo império francês: entre Guadalupe e Paris, arma-se o “espetáculo do mundo” que nos convida a seguir a família Ezechiel, com foco especial em Antoine, a narradora mais constante e para quem estão especialmente voltados os olhos dos outros personagens. Como ponto central de uma trajetória coletiva, ao mesmo tempo insólita e representativa dos desdobramentos coloniais, ela carrega as contradições próprias dos territórios ocupados e seu itinerário espelha os limites, as interdições e as hipóteses que só muito raramente permitem escapar aos nós ditados pela extração de classe e identidade racial.

Na alternância entre os narradores, na pluralidade de vozes e nos sinais de oralidade, indicia-se a presença do dialogismo como uma das chaves desse projeto ficcional que abraça a história da terra e suas gentes, a partir da incorporação de fatos e personagens históricos, preenchendo, com boa dose de invenção, as lacunas que a memória busca recompor. Em meio às notas sobre o duro cotidiano dos habitantes, à referência à quase apagada revolta de maio de 1967 na ilha e às menções a De Gaulle, Jaurès, Monnerville, Fanon, Césaire e Senghor, surge a representação de um Caribe que, descolorindo a visão do paraíso, recusa-se como resposta à sede de exótico dos ocidentais. Ao diferir em tudo de cenários propícios à idealização, Basse-Terre e Grande-Terre, as principais ilhas do Departamento Ultramarino, pelos olhos das personagens, refratam a tentação da nostalgia não raro identificada com a condição do exílio. É outra a natureza do desconcerto ali dominante, o leitor percebe.

No título Onde o vento faz a curva temos uma senha para penetrarmos nessa narrativa em que o encontro entre espaço e tempo revela a sutileza do que Mary-Louise Pratt chamou de “zona de contato”, área em que a partilha é selada pela desigualdade e a coerção. Assim, aludindo a uma espécie de “fim do mundo”, a curva do vento guarda não só a noção de distância extrema como a de um local do mundo orientado por outras regras. Para os membros da família Ezechiel, o deslocamento é vivenciado de dentro, por quem conhece as regras e consegue, a um só tempo, estranhar e reconhecer o mundo à volta. Sem a paleta do exotismo, em contraste com os folhetos de turismo e tantas páginas da literatura colonial, a terra que lhes devia pertencer é habitada desse modo particular, impondo-lhes a sensação de alteridade “em casa”. O colonialismo faz de cada um “o outro” em seu lugar. E, curiosamente, a evocação da oralidade que modula a narrativa e o recurso a expressões em crioulo, de certo modo, acentuam a fragmentação da experiência que a escrita procura delinear.

Sem fazer concessão a percepções cristalizadas dos que vivem nas margens plantadas pelo império na metrópole e nos espaços colonizados, o fascínio dessa obra cresce na plasticidade dos universos convocados para, simultaneamente, fazer da memória do passado um convite à viagem pelo contemporâneo. Ganha muito quem aceita o desafio.

Rita Chaves


Sobre a autora

Estelle-Sarah Bulle nasceu em 1974, em Créteil, na França, filha de pai guadalupense e mãe franco-belga. Estudou em Paris e Lyon, e trabalhou em consultorias e em instituições culturais antes de se dedicar à literatura. Là où les chiens aboient par la queue (Onde o vento faz a curva), publicado em 2018 pelas Edições Liana Levi, de Paris, é seu romance de estreia, que recebeu os prêmios Stanislas, Carbet, APTOM e Eugène Dabit, entre outros. Estelle-Sarah Bulle é também autora dos romances Les étoiles les plus filantes (As estrelas mais cadentes, 2021) e Basses terres (Baixas terras, 2024), bem como de obras voltadas para o público jovem, como Les fantômes d’Issa (Os fantasmas de Issa, 2020) e L’histoire sentimentale de mes cheveux (História afetiva dos meus cabelos, 2025).


Sobre a tradutora

Letícia Mei é mestra e doutora em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Comparada pela Sorbonne Nouvelle. Traduz literatura francófona, russa, italiana e hispânica. Do francês, verteu obras de Malcom Ferdinand, Violaine Bérot, Joseph Andras, Éric Chacour, Adeline Dieudonné, Kim Thúy, entre outros. Recebeu os prêmios Jabuti, APCA e Boris Schnaiderman pela tradução comentada e análise do poema longo Sobre isto, de Vladímir Maiakóvski, publicado pela Editora 34 em 2018. Atualmente, é pesquisadora com interesse em literatura moderna e contemporânea de escritoras plurilíngues e multiculturais, além de mediadora de eventos literários e professora convidada da FFLCH-USP, da Casa Guilherme de Almeida e da Sala Jaú, em São Paulo.


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