Editora 34

A invenção do leitor: Dom Quixote e o romance

Franklin de Mattos
168 p. — 13 x 20,5 cm
ISBN 978-65-5525-285-9
2026 — 1ª edição

Primeira tese brasileira dedicada integralmente a Dom Quixote, este livro de Franklin de Mattos é um convite à releitura do clássico de Miguel de Cervantes, puxando por um dos fios centrais da trama: a leitura literária, sua natureza e seus frutos tão imprevisíveis. Como explica Cervantes logo nas primeiras páginas do romance, as muitas noites em branco, dedicadas à leitura de livros de cavalaria, estão na raiz do desvario que permite a dom Quixote transformar moinhos em gigantes ou estalagens em castelos. Não é de estranhar, portanto, que tantos comentadores de Cervantes tenham se interessado pelo tema da leitura — e pelo tema vizinho: a natureza da imaginação, a “louca da casa”, como dirá o século XVII. A invenção do leitor inscreve-se nessa longa tradição, que Franklin de Mattos conhece em detalhe, ao mesmo tempo que a renova a partir de inspirações colhidas em alguns dos grandes críticos e teóricos da literatura do século XX. O resultado é fascinante, e por muitos lados: porque lança luz nova sobre o texto cervantino e relê episódios e personagens com imenso frescor; porque desafia ideias feitas sobre a natureza da leitura, da imaginação, da paródia, do riso, e faz isso desdenhando da oposição costumeira entre o cômico e o sério; porque é escrito com uma verve humana e estilística que não se desmente nunca. “Nada se perde no texto de Franklin de Mattos: nenhuma palavra, nenhuma frase, nenhuma ideia”, afirma Maria Augusta Vieira, autora do prefácio. Meditação originalíssima sobre a leitura e a imaginação, A invenção do leitor merece lugar entre os grandes ensaios críticos sobre Cervantes.


Texto orelha

Transformar moinhos de vento em gigantes, estalagens em castelos e uma camponesa em donzela são algumas das façanhas que garantiram a certo engenhoso fidalgote — e à sua imaginação sem freios — um lugar central na tradição do romance moderno. Como se lê nas primeiras páginas do livro de Cervantes, o desvario imaginativo de Dom Quixote é consequência dos dias e noites em que a personagem se embrenhou na leitura de novelas de cavalaria até que, “de pouco dormir e de muito ler”, seu cérebro ressecou-se, e “a tal ponto que acabou por perder o juízo”. Este ensaio de Franklin de Mattos detém-se justamente sobre o lugar da leitura em Dom Quixote. Sátira e condenação das novelas de cavalaria e da imaginação desregrada, como quis a primeira recepção da obra, ainda nos séculos XVII e XVIII? Ou, invertendo o jogo, elogio de ideais cavalheirescos sem lugar no mundo moderno e desencantado, como tantas vezes pensaram românticos e pós-românticos? A invenção do leitor foge a toda resposta fácil. Mantendo como fiel da balança a própria obra de Cervantes, Franklin de Mattos discute interpretações canônicas e mergulha no texto para examinar os movimentos de adesão e distanciamento das personagens e do leitor diante do que leem e vivem. Romance de complexidade sem par, Dom Quixote é também um livro que soube atravessar as eras sem jamais aborrecer o leitor, como faz questão de nos lembrar o ensaísta. Por que não conduzir a leitura por esse caminho? O resultado é fascinante: inscrevendo-se na tradição popular do humor carnavalesco, Cervantes faz com que sua obra venha a ser, a um só tempo, exaltação e crítica das novelas de cavalaria — e, por extensão, da leitura e da imaginação. E quanto a nós, pergunta-se por fim o autor, leitores modernos? Transcorridos quatro séculos desde a publicação do romance de Cervantes, que lugar nos resta entre a realidade e a ficção? Que noção, que prática da leitura e da imaginação nos legou o Quixote? 

Maria Aguilera Franklin de Matos


Sobre o autor

Franklin de Mattos nasceu em Botucatu, em 1950, e faleceu em São Paulo, em 2024. Foi professor titular de estética no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Publicou O filósofo e o comediante: ensaios sobre literatura e filosofia na Ilustração (Editora da UFMG, 2001) e A cadeia secreta: Diderot e o romance filosófico (Cosac Naify, 2004; Editora da Unesp, 2018), assinou a tradução e a introdução do Discurso sobre a poesia dramática, de Diderot (Brasiliense, 1986; Cosac Naify, 2005) e editou, entre 1997 e 2004, o Jornal de Resenhas. Foi membro colaborador da edição do tricentenário das Oeuvres complètes de Jean-Jacques Rousseau (Éditions Classiques Garnier).


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