Lucas Simone nasceu em São Paulo, em 1983. É formado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2011), com doutorado em Letras pelo Programa de Literatura e Cultura Russa da FFLCH-USP (2019). Publicou diversas traduções do russo, entre elas: Pequeno-burgueses (Hedra, 2010) e A velha Izerguil e outros contos (Hedra, 2010), de Maksim Górki; A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (Editora 34, 2012), de Fiódor Dostoiévski; O artista da pá, de Varlam Chalámov (Editora 34, 2016); O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 2016); Diário de Kóstia Riábtsev, de Nikolai Ognióv (Editora 34, 2017); O ano nu, de Boris Pilniák (Editora 34, 2017); e Dois hussardos (Editora 34, 2020), de Lev Tolstói.
Contos de Sebastopol reúne três relatos de Lev Tolstói, combinando reportagem e ficção, que descrevem um dos acontecimentos mais dramáticos da Guerra da Crimeia (1854-1855): o cerco à cidade de Sebastopol, em que o exército russo, que havia tomado a Crimeia aos turcos, viu-se sitiado pelas tropas inglesas e francesas. Tolstói era então um jovem oficial que, percorrendo os hospitais de campanha e os fronts de batalha, deixou seu testemunho em uma prosa enxuta e viva, que se afasta dos lugares-comuns heroicos e românticos e busca traçar um retrato fiel da experiência da guerra. O volume traz ainda um texto do historiador inglês Orlando Figes sobre a Guerra da Crimeia, um retrato do escritor feito por um ex-colega de regimento, e um texto do próprio Tolstói em que, décadas depois, ele reflete sobre o absurdo da guerra num verdadeiro libelo pacifista.
Lançada em 1856, época em que Lev Tolstói (1828-1910) fez sua entrada triunfal no cenário das letras russas, a novela Dois hussardos traz as histórias de pai e filho, ambos nobres e membros da cavalaria militar, que, num intervalo de vinte anos, detêm-se por uma noite na mesma cidade de província. Nesta que é considerada por Italo Calvino, autor do posfácio ao volume, uma das mais belas narrativas de Tolstói, o modo como os personagens interagem com os habitantes da cidade, as seduções e trapaças em que se envolvem, refletem muito mais do que o quadro mental de dois indivíduos: são índices das transformações profundas pelas quais passava a Rússia no século XIX.
Dos clássicos Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov até os contemporâneos Viktor Peliévin, Liudmila Ulítskaia e Dmitri Býkov, esta Antologia do humor russo reúne 37 autores e 57 textos, a maioria deles inéditos no Brasil, incluindo contos, trechos de romances, crônicas, cartas e até breves peças de teatro. Esta produção, que muitas vezes surgiu em contestação aos regimes repressivos do tsarismo e do stalinismo, traça um amplo panorama do "mundo do riso" russo, com suas múltiplas vertentes, da comédia do absurdo ao humor mais sutil.
O ano nu, de Boris Pilniák (1894-1938), publicado em 1922, capta o impacto da Revolução de 1917 em um vilarejo à beira das estepes orientais, acompanhando, no calor da hora, o declínio da nobreza rural e a ascensão dos camponeses no ano de 1919. Com sua escrita extremamente inventiva, que incorpora arcaísmos, onomatopeias, refrões e citações de crônicas antigas, o autor criou uma forma literária nova, que, como nota Georges Nivat no posfácio, está próxima das experiências do cinema de vanguarda de Dziga Vertov e Serguei Eisenstein.
O Diário de Kóstia Riábtsev (1926) foi uma das primeiras obras soviéticas de ficção a obter repercussão mundial. A partir de sua experiência como pedagogo, Nikolai Ognióv (1888-1938) cria o personagem de Kóstia, um estudante impulsivo e franco que narra em seu diário o cotidiano dos primeiros anos após a Revolução, abordando tanto as grandes questões sociais do período como as desventuras da vida de um adolescente comum.
Considerado "o maior escritor do século XX" pela vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, Varlam Chalámov (1907-1982) registra nos 28 contos de O artista da pá a luta pela sobrevivência no contexto de uma das maiores tragédias da humanidade: os campos de trabalhos forçados na União Soviética stalinista, onde morreram milhões de pessoas. Seu estilo seco e objetivo - descrito pelo próprio autor no ensaio "Sobre a prosa", recolhido ao final deste terceiro volume da série Contos de Kolimá - expõe os detalhes de cada situação vivida por ele e seus colegas de prisão, deixando uma marca indelével na memória dos leitores.
Com fios de arame, chapas metálicas e um punhado de cores, Alexander Calder (1898-1976) construiu uma obra que revolucionou a escultura moderna. Com texto e ilustrações do premiado autor holandês Sieb Posthuma, O arame de Alexandre, livremente inspirado em sua vida e seus trabalhos, aproxima o leitor das descobertas desse artista genial, mostrando que a invenção de novas formas não surge do nada, mas está sempre ligada a um fazer.
Dois meses após retornar de um exílio de quase dez anos na Sibéria, Fiódor Dostoiévski publicou, em 1859, A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes, um de seus mais singulares romances. Nele, o autor expõe uma faceta pouco conhecida sua: a do humorista. Por meio de situações cômicas e absurdas, Dostoiévski deu vida a um dos personagens mais famosos da literatura russa: Fomá Fomitch Opískin, o bufão alçado à condição de tirano que se tornaria símbolo de hipocrisia e parasitismo.