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Sanatório sob o signo da clepsidra
Tradução de Henryk Siewierski
ISBN 978-65-5525-229-3
Publicado em 1937, Sanatório sob o signo da clepsidra é o segundo e último livro do prosador e artista gráfico Bruno Schulz (1892-1942), um dos escritores mais originais do século XX. Nascido num lar judeu e educado em alemão, o autor deixou uma marca indelével na literatura moderna polonesa, língua na qual criou a sua intensa obra, interrompida tragicamente pela barbárie nazista.
Nos contos de Sanatório, Bruno Schulz dá continuação ao projeto artístico iniciado em Lojas de canela (1934), um esforço quase quixotesco de elevar o cotidiano mais banal — memórias de uma infância pacata numa cidadezinha provinciana — à categoria do mito. Através de uma prosa densa, atravessada por vislumbres surrealistas, e rica em imagens exuberantes e metáforas imprevisíveis, o escritor cumpre seu programa à risca.
Neste livro, que encerra esta nova edição da ficção completa do autor, além de uma versão revista da belíssima tradução de Henryk Siewierski, vertida fielmente do original polonês, o leitor encontrará dois textos inéditos de Bruno Schulz: o ensaio “A mitificação do real”, síntese e manifesto de toda a sua produção artística, e “Úndula”, o primeiro conto publicado pelo escritor, descoberto apenas em 2019.
Texto orelha
Ninguém escreve como Bruno Schulz. E ninguém nunca mais será o mesmo depois da leitura de seus contos. Prosa e poesia se confundem aqui, no detalhe e no conjunto; e o registro do que há de mais cotidiano abre janelas para a “infinidade da tristeza e do deleite”. É a “primavera definitiva” que floresce, em visões espantosas do segredo da vida, que o afeto extrai das profundezas e desenha em mil e um arabescos.
O escritor polonês passou a vida em Drohobycz, uma cidadezinha da Galícia (hoje região da Ucrânia), dando aulas de arte numa escola. Publicou só dois livros de contos, Lojas de canela (1934) e Sanatório sob o signo da clepsidra (1937), que lhe renderam um prêmio nacional de prestígio. Era desenhista e pintor de talento, também. Graças a isso teve proteção de um oficial da Gestapo, quando viveu confinado num gueto, durante a ocupação nazista. Até ser assassinado a tiros, na rua, aos cinquenta anos de idade, por um desafeto daquele oficial, na “quinta-feira negra”, quando foram mortos 230 judeus.
Um e outro livro se concentram no dia a dia da família, com destaque para o pai, dono de uma pequena loja de tecidos, mas abarcando um variado elenco de parentes, vizinhos e conhecidos: a mãe e a irmã, o aposentado, a criada, o tio, o rapaz de muletas, o menino com problemas, o diretor da escola, as crianças, o comerciante. Descrições da paisagem ganham dimensão transcendental. Enredos banais favorecem explosões de sentidos. Fellini e Kafka descobrem em Schulz um inesperado elo — talvez o único capaz de nos fazer pensar nessa combinação.
A última história de Sanatório faz homenagem direta à Metamorfose; e cabe lembrar que o autor polonês teve parte na primeira tradução de O processo para sua língua. Só que aqui é o pai, não o filho, quem acorda transformado num crustáceo. E o tom é bem outro, nesse escritor fadado à “revelação, a súbita visão da beleza flamejante do mundo”.
Foi Philip Roth o principal responsável pela descoberta de Schulz em outras línguas, quando o incluiu na coleção Writers from the Other Europe, editada pela Penguin na década de 1970. Quem escreveu a introdução foi John Updike, sem medir elogios: “Schulz foi um dos grandes escritores, um dos grandes transformadores do mundo em palavras; sua arte nos deixa espantados, estarrecidos com toda sua carga de beleza”. Outro grande autor do Leste europeu, o sérvio Danilo Kiš, seria ainda mais contundente: “Schulz é o meu deus”. A partir daí, foram se sucedendo as traduções, que agora somam mais de quarenta línguas. No Brasil, as primeiras edições dos dois livros, traduzidos por Henryk Siewierski, saíram faz trinta anos (e eu tive a honra de ser seu editor). Duas décadas depois, foram republicadas, em edição revista; e ressurgem agora, mais uma vez com retoques e com o acréscimo de um conto recuperado em 2019, além de um breve ensaio sobre “A mitificação do real”, verdadeira teoria da poesia, para não dizer verdadeira teoria de tudo.
O simples fato de saírem três edições em três décadas faz pensar que este Bruno Schulz há de durar para sempre, também em português. Pois não é menos que isso: a maravilhosa recriação da prosa polonesa merece ser lida como monumento brasileiro, em lugar de destaque no essencial e extraordinário, mas tão pouco reconhecido acervo de literatura em tradução.
Arthur Nestrovski
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