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Um país distante
Cinco aulas sobre a cultura americana
Tradução de Natasha Belfort Palmeira
Coleção Fábula
República e império, objeto de desejo e de repulsa, fornalha em que a liberdade e a violência, a ingenuidade e o cinismo teimam em se confundir: por onde se olhe, os Estados Unidos são um enigma a céu aberto. É justamente esse enigma que, pelo ângulo da cultura, Franco Moretti tenta decifrar em Um país distante. Nestas páginas breves e argutas, assinadas por um dos grandes críticos de nossos dias, a indagação do autor conduz o leitor por uma galeria de nomes decisivos das letras, das artes e do cinema norte-americanos.
Versão por escrito de aulas em Stanford, Um país distante começa por uma aposta central para Moretti: mais que simplesmente “desmascarar” os vínculos entre as formas artísticas e as forças históricas, o verdadeiro alvo da boa crítica materialista consiste em ressaltar as maravilhas de que só a arte e a literatura são capazes. Vistas ou lidas assim, as obras selecionadas por Moretti lançam luz reveladora sobre a história que as viu nascer. Quer se trate da poesia de Walt Whitman e da pintura de Andy Warhol iluminando o consumo de massas ou das peças de Arthur Miller e das telas de Edward Hopper confrontando o anonimato e a solidão, quer se trate ainda do filme noir e do western figurando e investigando a violência fundadora das sociedades modernas — a forma das obras sempre tem algo a dizer sobre as forças históricas que moldaram os Estados Unidos e, de fato, boa parte da história moderna.
Texto orelha
Um país distante é um livro breve e indispensável — na exata medida em que seu autor, o crítico italiano Franco Moretti, não recua diante de apostas arriscadas.
A primeira delas tem a ver com a origem destas Cinco aulas sobre a cultura americana nos anfiteatros de Stanford: o pensamento acadêmico deve ser o lugar por excelência do não-conformismo, seja ele de direita ou de esquerda, pois “é exatamente para isso que a universidade serve: para desafiar o que parece razoável”. O que, por sua vez, implica um dever de clareza, de abertura para o debate inteligente e democrático, sem apelar para a pose sapiencial nem para o recurso à claque bem-pensante.
Mas como fazer isso na prática e diante de um tema tão apto a suscitar paixões como é o assunto deste livro, a saber, a natureza da sociedade e da cultura norte-americanas? República, mas de aspirações imperiais; terra de liberdade, no entanto marcada pela violência que a funda e a mantém; pátria simbólica do individualismo, mas perpetuamente às voltas com a solidão e a massificação — a lista poderia seguir, suscitando, a cada novo elo, uma nova onda de reações de adesão ou recusa, elogio ou denúncia. Ao encarar essas questões pelo ângulo da criação cultural, Moretti não trilha o caminho mais fácil para quem provém de uma tradição materialista, e opta pela trilha mais difícil: levar a sério as pretensões e ambições da cultura norte-americana, a fim de notar suas contradições e pontos cegos, mas também a fim de medir seu poder de iluminação, de entrever aquelas maravilhas (o termo é do autor) de que só a literatura e as artes são capazes.
É sob essa luz que os protagonistas de Um país distante sobem ao palco: Whitman e seu lirismo do Novo Mundo, comparados à ironia de seu contemporâneo Baudelaire; Hemingway e sua prosa clara e precisa, às voltas com zonas de sombra que insistem em não se dissipar; Arthur Miller e a ambição de escrever tragédias em um mundo que roubou toda agência aos personagens individuais; Edward Hopper e Andy Warhol reinventando — ou talvez esvaziando? — os grandes gêneros da pintura ocidental; e, ainda, o western e o filme noir, indagando por meio das imagens em movimento as circunstâncias violentas que presidem à gênese da nação-império. O resultado das análises de Moretti é sempre surpreendente, revelando ao mesmo tempo a força autônoma das formas estéticas e seu lugar no coração da hegemonia cultural norte-americana ao longo de todo o século XX.
Sobre o autor
Franco Moretti nasceu em Sondrio, no norte da Itália, em 1950. Crítico e historiador da literatura, Moretti é dono de um estilo analítico que vincula a tradição do pensamento materialista e sociológico a diversas correntes da crítica literária do século XX, do formalismo russo ao estruturalismo. Lecionou em diversas universidades italianas e norte-americanas, entre as quais Salerno, Columbia e Stanford, onde é professor emérito. De sua obra vasta, foram publicados no Brasil os seguintes títulos: Atlas do romance europeu, 1800-1900 (Boitempo, 2003); Signos e estilos da modernidade: ensaio sobre a sociologia das formas literárias (Civilização Brasileira, 2007); A literatura vista de longe (Arquipélago, 2008); O burguês (Três Estrelas, 2014); e O romance de formação (Todavia, 2020).
Sobre a tradutora
Natasha Belfort Palmeira nasceu em São Paulo, em 1991. É graduada em Ciências Sociais pela PUC-SP e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e pela Université Sorbonne Nouvelle, onde estudou os romances de Machado de Assis e Gustave Flaubert. É autora de A forma livre: Baudelaire e Machado de Assis (Editora 34, 2025). Traduziu, entre outros, O romance de formação, de Franco Moretti (Todavia, 2020).