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A metamorfose das plantas
Tradução de Maria Filomena Molder
Coleção Clássicos
Após anos de estudos e de intensa observação, J. W. Goethe publica em 1790 o breve tratado sobre A metamorfose das plantas. Com exceção de uns poucos nomes que enxergaram a amplitude de suas considerações, a recepção ficou aquém do esperado. Seriam necessárias algumas décadas para que as teorias de Goethe, escritas na contramão do mecanicismo dominante em sua época, alcançassem a devida ressonância.
A intuição genial do poeta, tanto na botânica como em outros campos da ciência, consistiu basicamente em não tomar os fenômenos de modo estático, mas sim em sua perpétua mutabilidade, indagando então as leis que regem as suas transformações. Partindo do espanto primeiro — como é possível a Natureza apresentar uma tamanha exuberância de formas? —, Goethe formula a ideia de morfologia, cuja atenção se volta, no estudo dos organismos vivos, não para as formas fixas, mas para as formas de transição, as formas em devir, com fundas implicações para a biologia, a antropologia, a teoria da linguagem e outros campos.
No ensaio que conclui esta edição, “Para um esquematismo da natureza e da arte”, a filósofa e professora portuguesa Maria Filomena Molder, que também assina a tradução e as notas de A metamorfose das plantas, ilumina por vários ângulos o pensamento morfológico do autor de Fausto, destacando com maestria ímpar suas contribuições nos âmbitos da filosofia e da arte.
O presente volume conta ainda com uma seleção de excertos, cartas e comentários de Goethe sobre a própria obra, bem como passagens de outros autores, num arco de leitura que vai de Maimon a Walter Benjamin. Além disso, traz a elegia “A metamorfose das plantas”, de 1798, vertida ao português por Matheus Guménin Barreto, e reproduz dez desenhos do autor, cedidos especialmente para esta edição pelo Goethe- und Schiller-Archiv, de Weimar.
Texto orelha
Numa carta que escreve a Voltaire em 1758, Diderot profetizava que a supremacia dos geômetras nas ciências estava com os dias contados. O conhecimento se dirigia agora para a moral, as belas-letras, a física e a história natural. Ele queria dizer que de agora em diante todos esses saberes caminhariam juntos, formando, não um sistema, mas um todo bem articulado. Essa profecia foi de certo modo realizada algumas décadas depois com A metamorfose das plantas. O ensaio, com efeito, não se situa numa disciplina científica específica, mas num campo em que se combinam diferentes tipos de investigação e experimentação.
J. W. Goethe foi o primeiro a usar o nome morfologia como estudo das formas e estruturas orgânicas, mas já a concebe de maneira inteiramente original: “A morfologia repousa sobre a convicção de que tudo o que é também tem de significar a si próprio”. Todo ser tem de trazer ao mesmo tempo em sua forma a própria significação. A morfologia exige daquele que a pratica não apenas um conhecimento amplo e multifário; ela também requer observação atenta das constantes mutações do objeto, a capacidade de se metamorfosear junto com ele. Essa identificação do sujeito com o objeto não é capital apenas na ciência, mas também na arte: uma escultura não é estática, mas se move e exige uma sensibilidade ativa do observador. Ela está sintetizada na sentença plotiniana de que se o olho não fosse solar, não enxergaríamos a luz, citada na Doutrina das cores. Goethe se entendia, por isso, como alguém em constante experienciação e mutação, aberto a sempre novas descobertas. Como uma “heurística viva”, conforme definiu a si mesmo. Tudo isso, e muito mais, é admiravelmente mostrado e desenvolvido no estudo de Maria Filomena Molder que acompanha a sua esmerada tradução. O leitor também lerá com não menos deleite a primorosa versão do poema “A metamorfose das plantas”, com que Matheus Guménin Barreto o brinda na abertura deste volume.
Se foi uma espécie de síntese, grandiosa e simultaneamente enxuta, das reflexões de Lineu, Buffon, Diderot, Herder e tantos outros naturalistas do século XVIII, o pensamento morfológico goethiano também significou uma guinada epistemológica não menos fecunda que a da crítica kantiana. Sua morfologia inspirou a cultura filosófica de Georg Simmel e a filosofia das formas simbólicas de Ernst Cassirer, a psicologia gestáltica, a antropologia estrutural de Lévi-Strauss e a análise do conto fantástico de Vladimir Propp, sem esquecer artistas como Paul Klee e Joseph Beuys. A planta primordial também está na origem da “visão panorâmica” a partir da qual Ludwig Wittgenstein concebe a figuração sinóptica dos seus jogos de linguagem. Como Wittgen-stein, Goethe não procura demonstrar e nem mesmo explicar: é preciso apresentar, exibir. Como disse certeiramente o naturalista Geoffroy de Saint-Hilaire, a metamorfose das plantas não é, por isso, apenas um livro de botânica, mas “a história do espírito humano em geral”.
Márcio SuzukiSobre o autor
Sobre a tradutora
Maria Filomena Molder é Professora Jubilada da Universidade Nova de Lisboa. Pertenceu ao Conselho Científico do Collège International de Philosophie, de Paris (2003-2009), e é membro do Instituto de Filosofia da Linguagem (IFILNOVA), em Lisboa. Escreve sobre problemas de estética, enquanto problemas de conhecimento e de linguagem, para revistas de filosofia e de literatura, e para catálogos e outras publicações sobre arte e artistas. Traduziu, entre outros autores, J. W. Goethe, Ernst Jünger, Giorgio Colli e Heinrich von Kleist. É autora dos livros O pensamento morfológico de Goethe (1995), Semear na neve: estudos sobre Walter Benjamin (1999, Prêmio PEN Clube 2000), Matérias sensíveis (1999), A imperfeição da filosofia (2003), Símbolo, analogia e afinidade (2009), O químico e o alquimista: Benjamin, leitor de Baudelaire (2011, Prêmio PEN Clube 2012), As nuvens e o vaso sagrado (2014), Rebuçados venezianos (2016, Prêmio AICA/FCC 2017), Depósitos de pó e folha de ouro (2016), Cerimônias (2017), Dia alegre, dia pensante, dias fatais (2017, Prêmio PEN Clube 2018), O absoluto que pertence à terra (2005; Edições do Saguão, 2020, Prêmio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho 2021), Três conferências I — Lança o teu pão sobre as águas (2021) e Palavras aladas: conversas em torno do desenho com Cristina Robalo (2022).