Literatura brasileira
62 títulos
Partindo da obra de autores como Machado de Assis, Drummond, Saramago, Cortázar, Kafka e Maupassant, os breves contos de Recapitulações atualizam narrativas conhecidas e propõem novos desfechos para histórias consagradas. A premiada escritora Maria Valéria Rezende brinca aqui com a ideia de “originalidade”, e faz da sua prosa território de contínuo diálogo com outras literaturas. Com o despojamento de uma autora madura, aventura-se a habitar poéticas alheias, revelando aos leitores, ao longo destas doze “estórias”, muito dos bastidores do ofício de escritor. Com criatividade e humor, este livro formidável nos mostra, nas palavras de Maria José Silveira, “que livros amados e autores admirados não são monstros sagrados. Ao contrário. Eles abrem as portas da imaginação, convidando quem os lê a entrar e se aventurar por suas entrelinhas”.
António de Alcântara Machado (1901-1935) teve uma passagem fulgurante pelo meio intelectual brasileiro. Foi escritor, jornalista e fundador dos periódicos Terra Roxa, Revista de Antropofagia e Revista Nova, além de autor de três livros que são marcos do nosso modernismo: Pathé-Baby (1926), Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) e Laranja da China (1928). Brás, Bexiga e Barra Funda, cujo título remete a três bairros operários da capital paulista, com forte presença de imigrantes italianos, traz onze contos escritos em uma linguagem veloz e precisa. A presente edição, fac-similar, foi organizada pelo editor e crítico francês Antoine Chareyre, também autor do posfácio. O volume inclui notas explicativas aos contos, cinco textos adicionais de Alcântara Machado, bibliografia e uma fortuna crítica que apresenta um verdadeiro achado do organizador: uma resenha de Carlos Drummond de Andrade, inédita em livro, de 1927.
Um milhão de ruas reúne os livros Ela me dá capim e eu zurro (2014), Perambule (2018) e o inédito Bar Mastroianni, trazendo cerca de 190 textos escritos entre 2010 e 2025. Se a maioria é composta por crônicas no sentido corrente do termo, uma boa parte escapa às definições e se aproxima do conto, do poema, da prosa poética, da pura notação lírica e, no limite, do aforismo, numa multiplicidade de registros que corresponde a uma multiplicidade de formas de apreender e experimentar o mundo. Aqui a matéria do cotidiano se abre para outras dimensões e revela o andamento espantoso da vida contemporânea, tudo isso graças a um olhar lírico-cinematográfico e a uma escrita que incorporou a inteligência e a leveza de mestres da crônica como Rubem Braga, dos compositores da MPB, reverenciados nestas páginas, e bebe na boa literatura de todos os quadrantes.
Guerra — I é o primeiro romance de uma trilogia que se passa durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). Acompanhamos aqui o avanço do exército de Solano López sobre fortes e vilas em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, provocando a reação de Brasil, Argentina e Uruguai, unidos na Tríplice Aliança, e longas marchas para o front de brasileiros alistados em todos os cantos do país. De forma extremamente original, tudo é narrado pela voz de combatentes que deixaram seu testemunho em cartas, relatórios, memórias e diários cujos fragmentos foram selecionados pela autora, desde notáveis como Osório, Tamandaré, Rebouças e Taunay, a médicos, oficiais e soldados rasos hoje desconhecidos. “Nenhuma palavra nesse romance é minha”, diz a premiada escritora Beatriz Bracher neste livro fora do comum, onde, por não haver outros pontos de vista, vivemos o detalhe, o que está perto, o desconhecimento do todo. Assim, Guerra não explica a guerra, ele é a guerra em primeira pessoa.
Livro de estreia na ficção da jornalista Iara Biderman, Tantra e a arte de cortar cebolas reúne 21 contos curtos escritos com ritmo ágil e grande variedade de registros. Em todas as histórias deste livro provocativo, em que ressoam vozes majoritariamente femininas, há alguém que recusa o lugar onde está. De donas de casa a michês e travestis, suas personagens “heroicas em seu anti-heroísmo” — como nota Noemi Jaffe — compõem uma espécie de “mosaico brasileiro, passageiras e passageiros de um trem que parte da exploração cotidiana para alguns poucos instantes de plenitude. Tão passageira quanto eles”.
Uma pré-adolescente que nunca conheceu os pais, criada pelos avós numa cidade pequena, numa casa cercada por segredos. Uma vila de trabalhadores que vivem sob o jugo das autoridades locais, durante os anos de ditadura militar. Este é o cenário em que se passa o belo romance de Ana Cristina Braga Martes, Sobre o que não falamos. Espécie de romance de formação, o livro acompanha a protagonista em sua luta para desvendar o mistério sobre os pais, que será também uma jornada de descoberta das palavras, da história política do país e de sua própria identidade. Com raro talento narrativo, a autora toca em alguns dos problemas mais persistentes da sociedade brasileira, como a injustiça, a herança da ditadura e as desigualdades de raça e gênero numa sociedade fortemente patriarcal.
Entremeando cálculo e acaso, matemática e linguagem verbal, os contos de Números naturais — estreia da bióloga, cientista e escritora Marcella Faria no campo da ficção — não só exploram a ambiguidade do verbo contar (números e histórias), mas propõem um intrigante jogo de espelhamentos no qual natureza e cultura multiplicam seus sentidos. Como observou Roberto Zular, os 26 textos deste livro altamente estruturado parecem “falar a partir desse lugar impossível onde o mapa e a singularidade dos lugares, os desejos e as realizações, se cruzam”. E é precisamente nesse cruzamento inesperado que a arte narrativa revela a sua potência.