Literatura brasileira
62 títulos
Livro de estreia de João Antônio (1937-1996), Malagueta, Perus e Bacanaço foi lançado em 1963 e tornou-se de imediato um clássico, na mesma linhagem de autores como Antonio de Alcântara Machado e Lima Barreto. Seus nove contos concisos e diretos, de tintas autobiográficas mas isentos de sentimentalismo, recriavam saborosamente o ritmo e o léxico da língua popular de uma São Paulo praticamente desconhecida pelos leitores — a língua do pé-de-chinelo que chuta tampinhas pela rua e joga sinuca nos botecos. Ambientado na capital paulista no final dos anos 1950 e início dos 60, por este livro desfilam pequenos funcionários, soldados rasos, camelôs, malandros e desocupados que, pelas mãos de João Antônio, entraram finalmente pela porta da frente de nossa literatura.
Primeiro livro de ficção do premiado crítico, ensaísta e professor de teoria literária Antonio Arnoni Prado, O último trem da Cantareira reúne memória e invenção ao recriar os anos de infância do autor na zona norte de São Paulo, em meio a um bando de meninos que, longe dos livros, viviam soltos nas quebradas do bairro do Tremembé, entregues a brigas e aventuras de todo tipo. Em suas páginas, os arrabaldes da cidade, ao longo da linha do trem, ganham uma vida extraordinária, lembrando em parte Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár, e a experiência subjetiva adquire ressonância coletiva - pequeno milagre que só a grande literatura costuma realizar.
Romance de estreia de Ruth Guimarães (1920-2014), uma das primeiras escritoras negras a ganhar destaque no Brasil, Água funda foi lançado em 1946 - mesmo ano de Sagarana, de Guimarães Rosa, com quem guarda diversas semelhanças. Ao entrelaçar diferentes tempos e personagens, inseridos no universo de uma fazenda na Serra da Mantiqueira, a autora construiu uma narrativa ágil e fluida, aliando a cultura caipira à prosa moderna e prenunciando em alguns aspectos o realismo mágico de García Márquez e Juan Rulfo. Esta nova edição do livro, que se tornou um clássico da nossa literatura, conta ainda com excertos da crítica da época de seu lançamento e uma das primeiras entrevistas de Ruth Guimarães, saudada então como uma revelação de nossas letras.
Novo romance de Marcelo Mirisola, Como se me fumasse leva para um novo patamar o estilo característico do autor, que vai surpreender até mesmo seus fãs mais fiéis. Escrito sob o impacto da morte dos pais, o livro derruba de vez todas as fronteiras entre ficção, autoficção e memórias, passando por lugares tão díspares como a Praça Roosevelt, Espírito Santo do Pinhal e o fundo do mar em Florianópolis. A partir de uma conversa de bar em Buenos Aires e do terrível vaticínio de um "mago das celebridades", o escritor-personagem desfia um verdadeiro acerto de contas com sua vida, seus amores e suas obsessões, em uma narrativa permeada de ironia rascante e lirismo.
Este novo livro de Veronica Stigger - uma das vozes mais fortes da literatura brasileira contemporânea - reúne um conto, uma peça teatral curta e um poema, formando um estranho quebra-cabeça em que, surpreendentemente, todas as peças se encaixam. Ligando os três textos, sangue, muito sangue, e um uso extremamente consciente e singular da linguagem, que, do trágico ao cômico, do melancólico ao escatológico, encontra sempre a forma e o tom precisos. Publicado originalmente na Argentina, em 2013, Sul é lançado agora em português - porém, acrescido de um texto oculto, que caberá ao leitor desvelar.
Armas de papel
Graciliano Ramos, as <em>Memórias do cárcere</em> e o Partido Comunista Brasileiro
Prefácio de Francisco Alambert
Em 1936, Graciliano Ramos foi preso pelo regime de Vargas por causa de seu suposto alinhamento com o PCB, experiência que o escritor elaboraria dez anos depois em Memórias do cárcere, livro que sobrepõe relato, documento e literatura.
Armas de papel, de Fábio Cesar Alves, professor da USP, realiza uma leitura ampla e profunda das Memórias, ao levar em conta a duplicidade de vozes e temporalidades que se instauram no discurso do autor: o da experiência e o da rememoração. E, ao fazê-lo, acaba por recensear boa parte da história política do Brasil no século XX e oferecer ao leitor um belo estudo sobre o papel do intelectual num país periférico.
Armas de papel, de Fábio Cesar Alves, professor da USP, realiza uma leitura ampla e profunda das Memórias, ao levar em conta a duplicidade de vozes e temporalidades que se instauram no discurso do autor: o da experiência e o da rememoração. E, ao fazê-lo, acaba por recensear boa parte da história política do Brasil no século XX e oferecer ao leitor um belo estudo sobre o papel do intelectual num país periférico.
Tudo (e mais um pouco)
Poesia reunida (1971-2016)
Livro vendido com quatro modelos diferentes de capa
Influenciado por Oswald de Andrade e Allen Ginsberg, Chacal é um dos poetas brasileiros que mais representa o espírito libertário da contracultura nos dias de hoje. Tudo (e mais um pouco) reúne a obra poética do autor, de seu primeiro livro, Muito prazer, Ricardo (1971), até os mais recentes Murundum (2012), Seu Madruga e eu (2015) e Alô poeta (2016), incluindo ainda a versão teatral da autobiografia Uma história à margem (2010).
Após uma adolescência idílica, regada a canções de Renato Russo e All Stars vermelhos, Luís Guilherme, o protagonista desse novo romance de Marcelo Mirisola, tem que encarar a monstruosa vida adulta. E não dá outra: o inocente professorzinho particular de matemática é feito de gato e sapato por sua musa, a mulher-belzebu Natasha, cai de boca na Boca do Lixo paulistana e termina procurando a cura gay na Igreja Country da Eterna Graça de Deus. Conclusão: de protagonista, Gui não tem nada - e a vida, caros leitores, não tem cura.
O mundo sitiado
A poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial
Coedição com o Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da FFLCH-USP
Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2016 - Melhor Ensaio Literário
Neste ensaio profundo e inovador, Murilo Marcondes de Moura, professor de Literatura Brasileira da USP, se debruça sobre as respostas que quatro grandes poetas brasileiros - Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Murilo Mendes - deram a um tema universal: a Segunda Grande Guerra Mundial. O resultado é um livro que, ao relacionar guerra e poesia - incluindo um estudo sobre o impacto da Primeira Guerra nas obras de Apollinaire e Ungaretti -, abre um campo praticamente inexplorado em nossos estudos literários, e se revela fundamental para a compreensão de um momento central do modernismo brasileiro.
Novo romance de Beatriz Bracher, Anatomia do Paraíso traz a história de um jovem estudante de classe média que escreve uma dissertação de mestrado sobre o Paraíso perdido (1667), poema épico de John Milton que narra a queda do homem e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A história se desenvolve simultaneamente em vários planos: o dia a dia do estudante, Félix; suas reflexões sobre a obra de Milton; a dura vida de Vanda, vizinha de Félix, que se divide entre trabalho, estudo e os cuidados com a irmã mais nova; e o delicado processo de amadurecimento desta última, a adolescente Maria Joana. Narrativa densa, por vezes vertiginosa, e de alta carga dramática, na medida em que as trajetórias dos personagens vão se cruzando e os temas do Paraíso perdido - sexo, violência, pecado, culpa, traição, morte e redenção - ganham vida nas experiências de cada um.
Dois letrados e o Brasil nação
A obra crítica de Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda
Fruto de longa pesquisa sobre a vida e a obra de duas figuras fundamentais de nossa historiografia - Manuel de Oliveira Lima, autor de D. João VI no Brasil (1908), e Sérgio Buarque de Holanda, de Raízes do Brasil (1936) -, o novo livro de Antonio Arnoni Prado é bem mais do que um estudo sobre a formação de nossa crítica literária. Ao contrapor a trajetória desses grandes intelectuais, Dois letrados e o Brasil nação traz à tona concepções radicalmente distintas de história, cultura e nação, que continuam vivas e atuantes no debate cultural brasileiro.
Na frente da lendária boate Kilt, em São Paulo, se inicia este novo romance de Marcelo Mirisola, trazendo as peripécias de um certo MM e sua relação com duas mulheres: Paulinha Denise, uma Capitu mareada, loira descolorida, com problemas de identidade, e Ariela, a "outra", Lolita casada, verdadeira mentira ambulante. Na trama, um diamante contrabandeado, um réveillon trash no Rio de Janeiro e a terrível maldição de uma cigana, endereçada ao protagonista: "Você nunca vai amar ninguém nessa vida".