Editora 34
Áreas de Interesse

Crítica, Teoria Literária

68 títulos

O avesso das palavras
história da cultura e crítica da linguagem, 1901-1924
Organização e apresentação de Márcio Suzuki
Projeto gráfico de Raul Loureiro

Fritz Mauthner (1849-1923) foi um jornalista e escritor de prestígio em fins do século XIX e inícios do XX, quando lançou-se a um projeto filósofico rebelde e radical, cristalizado nas Contribuições a uma crítica da linguagem (1901-1902) e no Dicionário de filosofia (1910-1924). Nestas obras, ele critica a suposta capacidade da linguagem e da filosofia de representar o mundo, e define os conceitos como uma rede verbal constituída pela metáfora, pela fabulação e pelo mito. Primeira tradução de Mauthner para o português, O avesso das palavras é uma seleta generosa de seus principais textos. Com este volume, organizado por Márcio Suzuki, o leitor brasileiro poderá travar contato com um elo decisivo da tradição filosófica que vem dos românticos alemães e passa por Schopenhauer, Nietzsche e Brandes. Ao mesmo tempo, poderá julgar o fôlego de um ensaísta que cativou alguns dos nomes centrais da literatura modernista, de Joyce e Beckett a Jorge Luis Borges.

O sonho é o monograma da vida retraça a teia — verbal, conceitual, imagética — que vincula a criação literária de Jorge Luis Borges à filosofia de Arthur Schopenhauer. Do primeiro encontro com as obras do filósofo na Genebra da Primeira Guerra Mundial aos relatos, poemas e ensaios da maturidade em Buenos Aires, Borges não cessa de citar, comentar, destilar a lição idealista do alemão. Unindo crítica e filosofia, Márcio Suzuki mostra como, por essa via, o autor argentino chega à formulação de um “programa fantástico-idealista” e a um modo originalíssimo de figuração narrativa e poética da história — individual, sul-americana, universal. Por fim, num excurso surpreendente, o ensaio cruza a fronteira para perseguir o ressurgimento dos mesmos temas na obra de outro leitor de Schopenhauer, o brasileiro João Guimarães Rosa.

Tomando como ponto de partida a ideia de que Grande Sertão: Veredas pode ser lido como uma reescrita crítica de Os Sertões, este ensaio aborda a obra-prima de Guimarães Rosa enquanto “o romance de formação do Brasil”. De maneira clara e concisa, Willi Bolle mostra como a narrativa rosiana desconstrói e constrói a história do país, em diálogo com os principais ensaios de interpretação de nossa cultura: desde o livro matricial de Euclides da Cunha até os estudos fundamentais de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antonio Candido e outros. Por meio do cruzamento dessas múltiplas perspectivas, aspectos centrais do romance — a narração em forma de rede, o discurso diante do tribunal da História, o sistema jagunço como retrato da criminalização e o pacto com o Demônio como alegoria de um falso contrato social — emergem sob luz nova, revelando um conhecimento específico do processo histórico, contido na forma literária.

Foram apenas alguns meses de 1932 e 1933 em Ibiza, na Espanha, tempo que marcou a vida de Walter Benjamin profundamente, de modo nunca antes revelado como neste livro de Vicente Valero. Com sensibilidade, pesquisa minuciosa e conhecimento profundo da ilha do Mediterrâneo, o autor nos mostra que foi nesse lugar ainda isolado, com uma economia de subsistência e uma cultura milenar, que Benjamin, fugindo do nazismo e com parcos recursos, cruzou sua trajetória com outros europeus em busca de refúgio e escreveu textos decisivos como “Experiência e pobreza” e “Infância em Berlim”. Publicado em espanhol e traduzido para o alemão e o francês, este belo ensaio biográfico ganha agora edição no Brasil, incluindo uma iconografia dos personagens e locais abordados no estudo.

Rua de mão única
Organização de Jeanne Marie Gagnebin
Textos em apêndice de Asja Lacis, Siegfried Kracauer, Ernst Bloch e Theodor W. Adorno

Ao publicar Rua de mão única, em 1928, Walter Benjamin sinalizou uma guinada em sua carreira, deixando para trás as convenções da vida acadêmica e partindo para uma experimentação intelectual que surge na própria forma do livro, constituído de sessenta textos breves inspirados pela vivência na metrópole moderna, verdadeiras “imagens do pensamento”. Completam o volume, que traz uma introdução de Jeanne Marie Gagnebin, dois textos de Asja Lacis (a militante e diretora de teatro a quem foi dedicado o livro), que abordam o período em que ela e Benjamin se conheceram em Nápoles e Capri, um deles redigido com o próprio Benjamin, e três resenhas de Rua de mão única assinadas por Siegfried Kracauer, Ernst Bloch e Theodor W. Adorno.

Helenista, poeta e tradutora, a canadense Anne Carson é uma das escritoras mais originais da contemporaneidade e autora de uma obra dedicada a dissolver as fronteiras que separam pesquisa de invenção, criação de crítica e tradução de autoria. Esta coletânea, organizada por Sofia Nestrovski e Danilo Hora, apresenta essa obra pelo prisma do ensaísmo, reunindo onze textos, escritos num arco de mais de uma década e todos eles inéditos no Brasil, em que a autora de Autobiografia do vermelho aproxima os autores aparentemente mais distantes, como Virginia Woolf e Tucídides, Homero e Elizabeth Bishop, Longino e Antonioni, Francis Bacon e Joana D’Arc.
Considerado um ensaio seminal na carreira de Mikhail Bakhtin, O autor e a personagem na atividade estética foi redigido na primeira metade dos anos 1920 e integra seus escritos ditos “filosóficos”, trazendo pela primeira vez vários conceitos que serão fundamentais em suas obras posteriores sobre a linguagem, o discurso e o romance. A tradução de Paulo Bezerra, publicada originalmente na coletânea Estética da criação verbal, foi aqui inteiramente revista, além de acrescida de um posfácio do tradutor e de um texto inédito de Bakhtin em português: uma “Introdução” ao livro, com cerca de 30 páginas, descoberta pelos organizadores das Obras reunidas do autor na Rússia.
Dante como poeta do mundo terreno
Tradução de Lenin Bicudo Bárbara
Coordenação editorial e revisão técnica de Leopoldo Waizbort
Posfácio de Patrícia Reis
O presente estudo, Dante como poeta do mundo terreno, de 1929, é uma síntese extraordinária da Divina comédia, uma das obras centrais da literatura ocidental. Erich Auerbach, autor de Mimesis, sustenta que não é possível compreendermos a Comédia sem a Summa Theologica de Tomás de Aquino, obra que sistematizou a doutrina dos primeiros Padres da Igreja, na qual a Verdade divina manifesta-se historicamente no mundo terreno. A grande proeza do poeta florentino, segundo Auerbach, foi justamente a de ser o primeiro autor a dar forma literária a essa concepção cristã. Completam o volume uma pequena autobiografia escrita por Auerbach em 1929, quando candidatou-se a professor em Marburg, e um alentado posfácio de Patrícia Reis, em que ela mapeia as correntes intelectuais alemãs da época e a recepção da obra de Dante em meio à ascensão do nazifascismo.
Figurações
ensaios críticos
Organização de Paloma Vidal
Tradução de Gênese Andrade
Posfácio de Adriana Kanzepolsky
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Uma das principais autoras hispano-americanas dos séculos XX e XXI, tanto como ensaísta como ficcionista, a argentina Sylvia Molloy (1938-2022) fez seu doutorado na Sorbonne, lecionou nas universidades de Princeton e Yale, e tornou-se professora emérita de escrita criativa na Universidade de Nova York. Figurações, organizado por Paloma Vidal, reúne treze de seus principais ensaios, que versam sobre questões de gênero, sobre o lugar da crítica, sobre as relações entre autobiografia e ficção, sobre os “pais fundadores” da literatura latino-americana Domingo Sarmiento, José Martí e Rubén Darío, sobre a tradição das mulheres nas letras, de Teresa de la Parra e Victoria Ocampo a Alejandra Pizarnik, e sobre a obra inesgotável e inspiradora de Jorge Luis Borges.
Problemas da obra de Dostoiévski
Notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo
Ensaio introdutório e posfácio de Sheila Grillo
Problemas da obra de Dostoiévski, lançado em 1929, é a primeira versão de um dos livros-chave de Bakhtin, Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963. Organizado em duas partes, “O romance polifônico de Dostoiévski” e “A palavra em Dostoiévski”, o estudo analisa as principais obras do escritor russo, atentando para a multiplicidade de vozes e discursos que ele põe em cena, o que representou uma importante inovação na forma do romance. O presente volume inclui ainda um ensaio introdutório que historia a gênese do livro de Bakhtin e suas influências, e um posfácio que analisa a sua recepção na União Soviética da época, ambos redigidos por Sheila Grillo, tradutora da obra com Ekaterina Vólkova Américo.
Referência incontornável na fortuna crítica do autor de Crime e castigo, este livro do professor russo Nikolai Tchirkóv (1891-1950) analisa de forma detalhada a evolução do estilo de Dostoiévski a partir de seus principais romances, de Gente pobre (1846) a Os irmãos Karamázov (1880). Jogando luz sobre o processo de construção das narrativas do escritor, que inicialmente parte da Escola Natural e do romantismo para depois encontrar seu estilo próprio baseado nas figuras do “homem do subsolo” e do “homem-universo”, este volume é uma excelente porta de entrada para os leitores que quiserem conhecer mais a fundo a obra deste gênio da literatura.
Poesia em risco
Itinerários para aportar nos anos 1970 e além
Com a visão sensível para penetrar em cada poema e nele identificar tanto a contribuição individual como as marcas de época, Viviana Bosi, professora de Teoria Literária da USP, se debruça neste livro sobre a obra de Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Torquato Neto, Armando Freitas Filho, Ana Cristina Cesar, Francisco Alvim, Rubens Rodrigues Torres Filho, Sebastião Uchoa Leite e boa parte da poesia marginal da década de 1970. Fruto de extensa pesquisa, Poesia em risco não se limita à poesia registrada nos livros, mas reconstitui minuciosamente o circuito das publicações alternativas, revistas, jornaizinhos e fanzines por meio dos quais, em vários lugares do Brasil, as correntes do concretismo vieram se chocar e se misturar com as águas da poesia marginal.