Fritz Mauthner (1849-1923) foi um jornalista e escritor de prestígio em fins do século XIX e inícios do XX, quando lançou-se a um projeto filósofico rebelde e radical, cristalizado nas Contribuições a uma crítica da linguagem (1901-1902) e no Dicionário de filosofia (1910-1924). Nestas obras, ele critica a suposta capacidade da linguagem e da filosofia de representar o mundo, e define os conceitos como uma rede verbal constituída pela metáfora, pela fabulação e pelo mito. Primeira tradução de Mauthner para o português, O avesso das palavras é uma seleta generosa de seus principais textos. Com este volume, organizado por Márcio Suzuki, o leitor brasileiro poderá travar contato com um elo decisivo da tradição filosófica que vem dos românticos alemães e passa por Schopenhauer, Nietzsche e Brandes. Ao mesmo tempo, poderá julgar o fôlego de um ensaísta que cativou alguns dos nomes centrais da literatura modernista, de Joyce e Beckett a Jorge Luis Borges.
O sonho é o monograma da vida retraça a teia — verbal, conceitual, imagética — que vincula a criação literária de Jorge Luis Borges à filosofia de Arthur Schopenhauer. Do primeiro encontro com as obras do filósofo na Genebra da Primeira Guerra Mundial aos relatos, poemas e ensaios da maturidade em Buenos Aires, Borges não cessa de citar, comentar, destilar a lição idealista do alemão. Unindo crítica e filosofia, Márcio Suzuki mostra como, por essa via, o autor argentino chega à formulação de um “programa fantástico-idealista” e a um modo originalíssimo de figuração narrativa e poética da história — individual, sul-americana, universal. Por fim, num excurso surpreendente, o ensaio cruza a fronteira para perseguir o ressurgimento dos mesmos temas na obra de outro leitor de Schopenhauer, o brasileiro João Guimarães Rosa.
Tomando como ponto de partida a ideia de que Grande Sertão: Veredas pode ser lido como uma reescrita crítica de Os Sertões, este ensaio aborda a obra-prima de Guimarães Rosa enquanto “o romance de formação do Brasil”. De maneira clara e concisa, Willi Bolle mostra como a narrativa rosiana desconstrói e constrói a história do país, em diálogo com os principais ensaios de interpretação de nossa cultura: desde o livro matricial de Euclides da Cunha até os estudos fundamentais de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antonio Candido e outros. Por meio do cruzamento dessas múltiplas perspectivas, aspectos centrais do romance — a narração em forma de rede, o discurso diante do tribunal da História, o sistema jagunço como retrato da criminalização e o pacto com o Demônio como alegoria de um falso contrato social — emergem sob luz nova, revelando um conhecimento específico do processo histórico, contido na forma literária.
Foram apenas alguns meses de 1932 e 1933 em Ibiza, na Espanha, tempo que marcou a vida de Walter Benjamin profundamente, de modo nunca antes revelado como neste livro de Vicente Valero. Com sensibilidade, pesquisa minuciosa e conhecimento profundo da ilha do Mediterrâneo, o autor nos mostra que foi nesse lugar ainda isolado, com uma economia de subsistência e uma cultura milenar, que Benjamin, fugindo do nazismo e com parcos recursos, cruzou sua trajetória com outros europeus em busca de refúgio e escreveu textos decisivos como “Experiência e pobreza” e “Infância em Berlim”. Publicado em espanhol e traduzido para o alemão e o francês, este belo ensaio biográfico ganha agora edição no Brasil, incluindo uma iconografia dos personagens e locais abordados no estudo.
Ao publicar Rua de mão única, em 1928, Walter Benjamin sinalizou uma guinada em sua carreira, deixando para trás as convenções da vida acadêmica e partindo para uma experimentação intelectual que surge na própria forma do livro, constituído de sessenta textos breves inspirados pela vivência na metrópole moderna, verdadeiras “imagens do pensamento”. Completam o volume, que traz uma introdução de Jeanne Marie Gagnebin, dois textos de Asja Lacis (a militante e diretora de teatro a quem foi dedicado o livro), que abordam o período em que ela e Benjamin se conheceram em Nápoles e Capri, um deles redigido com o próprio Benjamin, e três resenhas de Rua de mão única assinadas por Siegfried Kracauer, Ernst Bloch e Theodor W. Adorno.
Helenista, poeta e tradutora, a canadense Anne Carson é uma das escritoras mais originais da contemporaneidade e autora de uma obra dedicada a dissolver as fronteiras que separam pesquisa de invenção, criação de crítica e tradução de autoria. Esta coletânea, organizada por Sofia Nestrovski e Danilo Hora, apresenta essa obra pelo prisma do ensaísmo, reunindo onze textos, escritos num arco de mais de uma década e todos eles inéditos no Brasil, em que a autora de Autobiografia do vermelho aproxima os autores aparentemente mais distantes, como Virginia Woolf e Tucídides, Homero e Elizabeth Bishop, Longino e Antonioni, Francis Bacon e Joana D’Arc.
Considerado um ensaio seminal na carreira de Mikhail Bakhtin, O autor e a personagem na atividade estética foi redigido na primeira metade dos anos 1920 e integra seus escritos ditos “filosóficos”, trazendo pela primeira vez vários conceitos que serão fundamentais em suas obras posteriores sobre a linguagem, o discurso e o romance. A tradução de Paulo Bezerra, publicada originalmente na coletânea Estética da criação verbal, foi aqui inteiramente revista, além de acrescida de um posfácio do tradutor e de um texto inédito de Bakhtin em português: uma “Introdução” ao livro, com cerca de 30 páginas, descoberta pelos organizadores das Obras reunidas do autor na Rússia.
O presente estudo, Dante como poeta do mundo terreno, de 1929, é uma síntese extraordinária da Divina comédia, uma das obras centrais da literatura ocidental. Erich Auerbach, autor de Mimesis, sustenta que não é possível compreendermos a Comédia sem a Summa Theologica de Tomás de Aquino, obra que sistematizou a doutrina dos primeiros Padres da Igreja, na qual a Verdade divina manifesta-se historicamente no mundo terreno. A grande proeza do poeta florentino, segundo Auerbach, foi justamente a de ser o primeiro autor a dar forma literária a essa concepção cristã. Completam o volume uma pequena autobiografia escrita por Auerbach em 1929, quando candidatou-se a professor em Marburg, e um alentado posfácio de Patrícia Reis, em que ela mapeia as correntes intelectuais alemãs da época e a recepção da obra de Dante em meio à ascensão do nazifascismo.
Uma das principais autoras hispano-americanas dos séculos XX e XXI, tanto como ensaísta como ficcionista, a argentina Sylvia Molloy (1938-2022) fez seu doutorado na Sorbonne, lecionou nas universidades de Princeton e Yale, e tornou-se professora emérita de escrita criativa na Universidade de Nova York. Figurações, organizado por Paloma Vidal, reúne treze de seus principais ensaios, que versam sobre questões de gênero, sobre o lugar da crítica, sobre as relações entre autobiografia e ficção, sobre os “pais fundadores” da literatura latino-americana Domingo Sarmiento, José Martí e Rubén Darío, sobre a tradição das mulheres nas letras, de Teresa de la Parra e Victoria Ocampo a Alejandra Pizarnik, e sobre a obra inesgotável e inspiradora de Jorge Luis Borges.
Problemas da obra de Dostoiévski, lançado em 1929, é a primeira versão de um dos livros-chave de Bakhtin, Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963. Organizado em duas partes, “O romance polifônico de Dostoiévski” e “A palavra em Dostoiévski”, o estudo analisa as principais obras do escritor russo, atentando para a multiplicidade de vozes e discursos que ele põe em cena, o que representou uma importante inovação na forma do romance. O presente volume inclui ainda um ensaio introdutório que historia a gênese do livro de Bakhtin e suas influências, e um posfácio que analisa a sua recepção na União Soviética da época, ambos redigidos por Sheila Grillo, tradutora da obra com Ekaterina Vólkova Américo.
Referência incontornável na fortuna crítica do autor de Crime e castigo, este livro do professor russo Nikolai Tchirkóv (1891-1950) analisa de forma detalhada a evolução do estilo de Dostoiévski a partir de seus principais romances, de Gente pobre (1846) a Os irmãos Karamázov (1880). Jogando luz sobre o processo de construção das narrativas do escritor, que inicialmente parte da Escola Natural e do romantismo para depois encontrar seu estilo próprio baseado nas figuras do “homem do subsolo” e do “homem-universo”, este volume é uma excelente porta de entrada para os leitores que quiserem conhecer mais a fundo a obra deste gênio da literatura.
Com a visão sensível para penetrar em cada poema e nele identificar tanto a contribuição individual como as marcas de época, Viviana Bosi, professora de Teoria Literária da USP, se debruça neste livro sobre a obra de Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Torquato Neto, Armando Freitas Filho, Ana Cristina Cesar, Francisco Alvim, Rubens Rodrigues Torres Filho, Sebastião Uchoa Leite e boa parte da poesia marginal da década de 1970. Fruto de extensa pesquisa, Poesia em risco não se limita à poesia registrada nos livros, mas reconstitui minuciosamente o circuito das publicações alternativas, revistas, jornaizinhos e fanzines por meio dos quais, em vários lugares do Brasil, as correntes do concretismo vieram se chocar e se misturar com as águas da poesia marginal.