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Paula Abramo
Edição bilíngue
128 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-278-1
2026
- 1ª edição
Livremente inspirada em memórias familiares e nas cartas escritas por seu avô Fúlvio Abramo nas décadas de 1930 e 1940, em Fiat Lux a poeta mexicana Paula Abramo recria desde dentro a trama de vozes, lugares e acontecimentos que definiu a trajetória de um punhado de homens e mulheres, cujos destinos se forjaram no calor da ação política.
Um dos núcleos do livro é também um episódio central da luta política brasileira — a batalha ocorrida na Praça da Sé, centro de São Paulo, em outubro de 1934, quando um pequeno número de militantes socialistas e anarquistas enfrentou uma manifestação de cinco mil integralistas. Entre os ativistas de esquerda estavam não apenas nomes como Mário Pedrosa, o próprio Fúlvio e outros membros da família Abramo, mas muita gente anônima, figuras esquecidas que, como já observou Antonio Candido, “formam o miolo da história e por vezes exprimem o que há nela de mais humano”.
Escrito a partir de um duplo exílio — o do avô, que fugiu da polícia de Vargas em 1938, e o do pai, que se refugiou no México para escapar à ditadura militar dos anos 1960 —, Fiat Lux conecta distintas gerações e geografias e, graças à tradução de Gustavo Pacheco, devolve à cultura brasileira uma experiência que é nossa, mas estava afastada de nós.
Texto orelha
Desde o título, este livro de Paula Abramo, mexicana com raízes brasileiras, nos chega com uma invocação ao gesto cosmogônico mais conhecido em nossa cultura, de fundação de terras e povos: Fiat Lux. Haja luz. Porém não se trata aqui de um ato de grandiloquência. Essas pequenas palavras evocam no leitor brasileiro mais do que a gênese do mundo. Elas agitam a memória antiga de cozinhas e avós, seus fogões acesos graças aos fósforos da marca Fiat Lux. Nestes gestos — um, agigantado, o outro, mínimo — equilibra-se a bela poesia de Abramo, que ergue sua lanterna para iluminar um lugar inquinado entre a criação e o comércio, histórias lembradas por algumas gerações e esquecidas pelas seguintes. Como escreve a poeta, seu “registro não consta/ nesta história de vidas mais ou menos simples”. Se tem sido comum nos últimos anos que a literatura brasileira retorne aos fantasmas do passado, aos golpes frequentes, aos exílios de tantos cidadãos, o livro de Paula Abramo tem, mais do que um lugar de fala, um ponto específico de perspectiva: transforma a história de parte de sua família num caleidoscópio de perseguições que também se espraiam para além do continente americano, iluminando as convoluções políticas que se abateram sobre o Ocidente de forma periódica. Pois este livro não apenas chega aos leitores brasileiros, mas também retorna. Parte da História que aqui encontra sua luz mítico-poética se deu em nossas terras. E nos chega-retorna agora que a República se vê novamente ameaçada por forças contrárias à partilha da alegria. É um jogo arriscado trazer a História para dentro do texto poético. Mas o sucesso deste livro pode ser compreendido à luz dos esforços de outros poetas deste século, como a M. NourbeSe Philip, de Zong!, o Luis Felipe Fabre, de La sodomía en la Nueva España, a Juliana Spahr, de This connection of everyone with lungs, entre outros, cada qual com suas vozes particulares e peculiares. Trata-se de poesia que lança mão de estratégias líricas para incorporar impulsos épicos. Não me refiro aqui ao arco expansivo dos poemas fundadores de impérios. Talvez fosse mais apropriado chamar este livro de anti-épico, porque suas vozes não buscam supremacia ou grandiosidade, mas o direito ao pertencimento e o desejo à partilha. Seu ato criativo é um alerta contra as fundações que nos levam apenas a afundar outras vozes no silêncio, convenientemente apagadas. Seus poemas operam o que costumo chamar de “respiração do texto”: um inflar-se para a macrovisão da existência, para logo em seguida desinflar-se numa microvisão da mesma. Inspirar, expirar. O ar dos nossos escambos com o mundo, borrando fronteiras entre privado e público, interno e externo, o meu e o nosso. Este livro, repito, não está apenas chegando às suas mãos, leitores da República do Brasil. Retorna às suas mãos, olhos e língua. Um círculo. E se o castelhano de Paula Abramo encontra em Gustavo Pacheco seu exímio tradutor brasileiro, a ele se unem por suas páginas outras vozes, as dos mortos. Se os momentos propícios para termos poemas como os de Fiat Lux entre nós são frequentes, porque nossa História teima em não se corrigir, este é um momento propício para sua chegada-retorno. Dou a Paula Abramo e a seu livro as boas-vindas, porque são boas novas. Ricardo Domeneck
Sobre a autora
Poeta e tradutora, Paula Abramo nasceu na Cidade do México, em 1980, e é formada em Letras Clássicas pela Universidade Nacional Autônoma do México. Dedica-se à tradução do português para o espanhol desde 2001 e já verteu para essa língua mais de sessenta obras, em sua maioria de autores brasileiros, de Machado de Assis e Clarice Lispector a Angélica Freitas e Victor Heringer. Em 2018 recebeu o Prêmio Belas Artes de Tradução Literária, o mais importante prêmio de tradução no México, e, em 2024, o Prêmio de Tradução Giovanni Pontiero, organizado pelo Centro de Língua Portuguesa/Instituto Público Camões e a Universidade Autônoma de Barcelona. Fiat Lux foi publicado no México em 2012, recebeu o Prêmio de Poesia Joaquín Xirau Icaza e foi considerado a melhor estreia literária do ano pela revista La Tempestad. Em 2020 foi publicado por audisea, na Argentina, e em 2022 pela FlowerSong Press, nos Estados Unidos, com tradução de Dick Cluster.
Sobre o tradutor
Gustavo Pacheco nasceu no Rio de Janeiro em 1972. Traduziu para o português obras de César Vallejo, Roberto Arlt, Julio Ramón Ribeyro e Patricio Pron. Foi codiretor da revista Granta em língua portuguesa. Seu livro de contos Alguns humanos (Tinta da China Brasil, 2018) ganhou o prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional.
Veja também
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