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Os anos de viagem de Wilhelm Meister

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Os anos de viagem de Wilhelm Meister

Johann Wolfgang von Goethe

Tradução de Claudia Abeling

Apresentação de Marcus Vinicius Mazzari

Coleção Clássicos

520 p. — 16 x 23 cm
ISBN 978-65-5525-289-7
2026 — 1ª edição

Quatro dias após ter completado seu 80º aniversário, em 1829, Goethe dava os últimos retoques a Os anos de viagem de Wilhelm Meister — a aguardada continuação de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, obra fundadora do gênero “romance de formação” —, no qual trabalhava havia décadas. Fruto, como o Fausto II, de sua alta velhice, o livro assoma como a mais arrojada e complexa narrativa de Goethe — com uma vasta galeria de personagens, múltiplos fios narrativos, novelas inteiras inseridas na moldura do romance, poemas, aforismos e sentenças —, valendo-se de procedimentos épicos inusitados para a época, nos quais já se enxergou um momento precursor do romance moderno, de extração joyceana.

Em seu veio principal, o livro narra as viagens a pé de Wilhelm e sua formação como médico-cirurgião (que na Alemanha da época tinha um status próximo ao de um ofício), a qual ocorre num contexto social revolucionado pelo advento da máquina a vapor e de novas forças produtivas, com seus corolários positivos e negativos: destruição da manufatura, desemprego, movimentos migratórios, perspectiva de uma vida melhor no continente americano. Acima de tudo, Os anos de viagem são um romance social, o mais significativo de seu tempo, conforme postulou Karl Rosenkranz ao inaugurar a recepção socialista da obra articulada por discípulos de Hegel.

Para orientar o leitor no vasto e intricado universo do romance — pela primeira vez traduzido no Brasil, por Claudia Abeling — o volume traz sinopses de todos os capítulos e um alentado ensaio de apresentação de Marcus Mazzari, professor da USP e um dos maiores especialistas contemporâneos na obra goetheana.


Texto orelha

“Como muita coisa em nossa experiência não pode ser pronunciada de forma acabada e nem comunicada diretamente, há muito tempo elegi o procedimento de revelar o sentido mais profundo ao leitor atento por meio de configurações que se contrapõem umas às outras e ao mesmo tempo se espelham umas nas outras. Como tudo a que dei expressão se fundamenta em experiência de vida, posso certamente sugerir e esperar que as minhas criações poéticas sejam por sua vez efetivamente vivenciadas.”

Carta de Goethe a Carl Jacob Ludwig Iken, durante o trabalho em Os anos de viagem, 27/9/1827 

“Eu só ousaria dizer que temos todos os motivos para agradecer profundamente a Vossa Excelência pelas percepções e perspectivas puras e elevadas que nos descortina essa obra que a mim se configura como um testamento de todas as suas experiências de vida e que, em seu conteúdo profundamente sério e digno, satisfaz todas as exigências que se podem fazer a uma obra poética, e não meramente didática, por intermédio de sua forma maravilhosa”.

Carta de Karl Ernst Schubarth a Goethe, junho de 1829 

“Esse livro altamente cativante, de conteúdo tão substancial, causou-me a mais singular e agradável das impressões; em vários aspectos, ele surgiu perante meus olhos como algo familiar e, ao mesmo tempo, novo [...]. Em suma, acreditei, em face de sua descrição dos costumes e das condições de nossa época, estar lendo um Ariosto em prosa.”

Carta de Sulpiz Boisserée a Goethe, agosto de 1829 

“Tenho lido bastante e com frequência Os anos de viagem, onde sempre encontro uma vida nova, que enriquece e edifica os meus dias. Há muito tempo que o livro ultrapassa, para mim, o estatuto de romance e criação literária. Agora é o saint-simonismo que entrou em diálogo com ele. Essa curiosa personalidade francesa [...] haverá infalivelmente de penetrar em nosso meio; e então valerá a pena comparar e distinguir com precisão quais sementes de doutrinas e práticas análogas já estavam plantadas em Os anos de viagem.”

Carta de Varnhagen von Ense a Goethe, dezembro de 1831 

“É a formação, tal como Goethe a entendia, [...] é aquela árdua e rigorosa tarefa do conhecimento que o acompanhou por toda a vida, obrigando-o, com uma fome sempre insaciável, a absorver em si todas as manifestações da vida e a redimensioná-las, no verdadeiro sentido da palavra. E é essa totalidade da existência que o impulsionou a formas de expressão inteiramente novas e que, em Os anos de viagem, lançou as bases da nova criação literária, do novo romance [...]. Goethe ainda vivia na época dos antigos valores; ele estava em sintonia com seu tempo, mas sua intuição e seu conhecimento estavam cem anos à frente.”

Hermann Broch em “Joyce e o presente” (1936) 

“Em 1830 Os anos de viagem ocupa um lugar de máxima exposição na nova era histórica e toca em seu cerne. Não como ‘romance de época’, coisa que também é, mas sim como obra de arte consciente de seus limites — e da chance de ultrapassá-los. Em 1830 ele é tão representativo da modernidade da época como cem anos depois será o Ulysses. E que Os anos de viagem o seja en passant, de modo tão leve e descontraído, isso é o que há de mais maravilhoso.”

Adolf Muschg, posfácio a uma edição da novela O homem de 50 anos (1985)


Sobre o autor
Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 1749 em Frankfurt am Main, na Alemanha. Iniciou os estudos de Direito em Leipzig, aos 16 anos, ao mesmo tempo em que lia os clássicos franceses e escrevia seus primeiros poemas, interessando-se também pelas Ciências Naturais. Em 1770 transfere-se para Estrasburgo, onde conhece Herder e completa os estudos de Direito. Em 1772, já trabalhando em Wetzlar como advogado, escreve a peça Götz von Berlichingen, de inspiração shakespeariana, e começa a redigir o Fausto, que seria sua obra-prima. Em 1774 publica Os sofrimentos do jovem Werther, romance que obtém enorme sucesso e transforma o jovem poeta em um dos mais eminentes representantes do movimento “Tempestade e Ímpeto”. No ano seguinte aceita o convite do jovem duque de Weimar para trabalhar na corte daquela pequena cidade: como alto funcionário da administração, o escritor desdobra-se em homem de Estado. Após dez anos, em 1786, enfastiado com o trabalho, parte para a Itália com um nome falso, experiência registrada no livro Viagem à Itália, publicado em dois volumes, em 1816 e 1829. Quando retorna a Weimar, em 1788, estabelece amizade com Schiller, professor na Universidade de Iena. Em 1790 assume a superintendência dos Institutos de Arte e Ciências de Weimar e Iena e, no ano seguinte, a direção do Teatro de Weimar. Lança depois o romance de formação Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1796), o poema épico Hermann e Dorothea (1797), a primeira parte do Fausto (1808), os romances As afinidades eletivas (1809) e Os anos de viagem de Wilhelm Meister (1829), e a autobiografia Poesia e verdade (redigida entre 1811 e 1831), entre outras obras. Após sessenta anos de trabalho no Fausto, Goethe conclui a segunda parte da tragédia, meses antes de falecer em Weimar, em 1832.

Sobre a tradutora

Claudia Abeling nasceu em São Paulo, em 1965. Depois de trabalhar como editora em algumas casas de edição de São Paulo e também de Frankfurt, na Alemanha, concentrou suas atividades profissionais na tradução literária do alemão. Entre os títulos que verteu para o português, dois foram finalistas do Prêmio Jabuti. Também é autora dos livros de poemas p:l:a:n:g:e p:l:a:n:g:e (Quelônio, 2019) e a que manca (Quelônio, 2026).


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