Crítica, Teoria Literária
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República, mas de aspirações imperiais; terra da liberdade, no entanto marcada pela violência e pelo belicismo; pátria-símbolo do individualismo, mas sempre às voltas com a solidão e a massificação: por onde se olhe, os Estados Unidos são um enigma a céu aberto. É justamente essa nação que, pelo ângulo da cultura, Franco Moretti tenta decifrar em Um país distante. Nestas páginas, assinadas por um dos grandes críticos de nossos dias, a indagação do autor conduz os leitores por uma galeria de obras e nomes decisivos das letras, das artes e do cinema norte-americanos, como a poesia de Walt Whitman e a pintura de Andy Warhol, iluminando o consumo de massas, as peças de Arthur Miller e as telas de Edward Hopper, confrontando o anonimato e a solidão, e os filmes do cinema noir e do western, figurando a violência fundadora das sociedades modernas.
Reconhecido e celebrado por sua obra poética, Leonardo Fróes (1941-2025) foi também um tradutor, ensaísta e resenhista de mão cheia. O fascínio das palavras reúne pela primeira vez os seus principais ensaios de literatura, escritos ao longo de meio século de convívio intenso e apaixonado com os livros. Cobrindo um arco que vai da Antiguidade Clássica aos dias atuais, do Oriente à Mesoamérica, comparecem aqui alguns dos maiores nomes da literatura universal, como John Milton, Bashô, Lord Byron, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Virginia Woolf, Elizabeth Browning, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Stendhal, Goethe, Freud, Jung, Tchekhov, entre muitos outros. Obra de interesse para o público acadêmico e para os leitores em geral, estes ensaios de poeta ensinam e inspiram, revelando a cada página o brilho intelectual de uma das figuras mais marcantes de nossas letras.
Pela primeira vez no Brasil em tradução direta do russo, A obra de François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e no Renascimento é considerada a magnum opus de Mikhail Bakhtin (1895-1975), em que ele mobiliza os conceitos desenvolvidos por seu círculo nos anos 1920 e 1930 para chegar a uma compreensão magistral sobre as relações entre linguagem e sociedade. Ao analisar a cultura popular, não oficial, cuja expressão-chave são os romances de Rabelais e a utopia libertária do carnaval — que subverte hierarquias, desconstrói certezas e abre alas para um novo tempo social —, Bakhtin revolucionou os estudos da língua e da literatura. A introdução de Sheila Grillo, tradutora da obra com Ekaterina Vólkova Américo, analisa o percurso do texto, desde os anos 1930 até a década de 1960, detendo-se no doutorado de 1946, e reproduz páginas inéditas de Bakhtin sobre Gógol, excluídas da tese a mando das autoridades soviéticas.
O Elogio da mão, de Henri Focillon (1881-1943), é um dos grandes ensaios de reflexão estética e antropológica que o século XX produziu. Publicado em 1939 como apêndice ao livro Vida das formas, sua ousadia não se limita ao brilho da prosa do historiador francês e faz pensar em autores como Warburg, Benjamin e Merleau-Ponty. Ao destronar o olhar da posição de eminência que sempre foi sua no campo da estética, Focillon afirma o primado da mão ativa e criadora no nosso trato com o mundo, pois, para ele, o artista é um “homem antigo”, que em plena era mecânica reencena com suas mãos a descoberta das coisas. A edição conta com mais de trinta reproduções coloridas das obras de arte analisadas pelo autor e um apêndice com as Ilustrações detalhadas dos grandes desenhos de Hokusai, de 1817 — artista-chave, junto com Rembrandt, para o argumento de Elogio da mão.
Publicado em 1929, Um quarto só para mim (A Room of One’s Own), de Virginia Woolf, é um ensaio incontornável. Convidada no ano anterior a pronunciar palestras na universidade de Cambridge sobre o tema geral de “as mulheres e a ficção”, a autora serviu-se da ocasião para cristalizar suas reflexões sobre a condição e a emancipação da mulher no Ocidente, a natureza e as vertentes da escrita feminina, e a necessidade de reescrever a história da literatura — recorrendo, quando necessário, à ficção e inspirada pelas possibilidades que a modernidade e o feminismo inauguravam. Nesta nova tradução, Um quarto só para mim é seguido por outro ensaio, “A querela das mulheres”, em que a crítica e escritora mexicana Margo Glantz revisita o texto de Woolf à luz da condição feminina no século XXI.
Baudelaire chegou rápido às letras brasileiras, e não apenas sob a forma dos poemas escandalosos de As flores do mal. Como demonstra Natasha Belfort Palmeira, também os “pequenos poemas em prosa” de O spleen de Paris não tardaram a ser traduzidos, imitados, parodiados por uma turma de jovens escritores. Quase todos desconhecidos, tinham uma coisa em comum: gravitavam em torno de Machado de Assis, secreto instigador dessas leituras pioneiras de Baudelaire. Mas A forma livre não para aí. Ao recontar este capítulo até aqui desconhecido de nossa história literária, a autora reconstrói com ânimo detetivesco como “o circunspecto Machado de Assis incorporou a ideia e a técnica dos petits poèmes en prose ao tecido de suas grandes obras”, em especial às Memórias póstumas de Brás Cubas, que já não poderemos ler sem “reconhecer ali uma tonalidade baudelairiana”, conforme declara Roberto Schwarz em seu texto de apresentação.
Figura, publicado em 1938, é um ensaio fundamental de Erich Auerbach, um dos maiores críticos literários do século XX. Nele, seu autor percorre ao longo de um milênio a formação do modo de interpretação figural, que confere sentido às relações entre o Velho e o Novo Testamento, alcançando inclusive a Antiguidade greco-romana. Para essa maneira de pensar, Adão e Moisés deixam de ser personagens da história do povo judeu e passam a figuras que anunciam a vinda de Jesus Cristo, unificando passado e presente — visão que predominou em toda a Idade Média e tem sua suma na Comédia de Dante. O presente volume, organizado e prefaciado por Leopoldo Waizbort, traz uma nova tradução do ensaio, direta do alemão, e sete estudos correlatos de Auerbach, redigidos entre as décadas de 1920 e 1950, que demonstram a centralidade do tema na obra do autor de Mimesis.
Esta nova edição do clássico ensaio de Leo Spitzer (1887-1960), Três poemas sobre o êxtase, publicado originalmente em 1949, se inicia com a reprodução dos poemas de John Donne (“The extasie”), San Juan de la Cruz (“En una noche escura”) e Richard Wagner (“Tristan und Isolde”), em edição bilíngue, nas belas traduções de Augusto de Campos, Carlito Azevedo e Haroldo de Campos, respectivamente. Em seguida, lemos o inspirado estudo de Spitzer, um dos grandes filólogos e críticos literários do século XX, em que ele mostra como poetas muito diversos entre si lançam mão dos recursos de sua língua e de sua tradição para dizer o indizível, ou seja, para “fazer de suas experiências íntimas uma realidade poética para o leitor”.
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Edição bilíngue português/alemão
Jogo da forca reúne parte significativa da produção de Christian Morgenstern (1871-1914), poeta modernista alemão conhecido por seus versos curtos em estilo irônico e absurdo. De autoria de alguns dos principais escritores brasileiros, como Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Paulo Mendes Campos e Rubens Rodrigues Torres Filho, as traduções desta coletânea foram publicadas de forma esparsa em jornais, revistas e livros de edição artesanal, e aqui reunidas pela primeira vez após um trabalho de pesquisa de duas décadas levado a cabo pelo organizador Samuel Titan Jr., autor também do posfácio ao volume. A edição, bilíngue alemão-português, conta ainda com um ensaio de Sebastião Uchoa Leite, “No planeta de Morgenstern”, em que ele aborda a obra desse genial autor do início do século XX.
Fritz Mauthner (1849-1923) foi um jornalista e escritor de prestígio em fins do século XIX e inícios do XX, quando lançou-se a um projeto filósofico rebelde e radical, cristalizado nas Contribuições a uma crítica da linguagem (1901-1902) e no Dicionário de filosofia (1910-1924). Nestas obras, ele critica a suposta capacidade da linguagem e da filosofia de representar o mundo, e define os conceitos como uma rede verbal constituída pela metáfora, pela fabulação e pelo mito. Primeira tradução de Mauthner para o português, O avesso das palavras é uma seleta generosa de seus principais textos. Com este volume, organizado por Márcio Suzuki, o leitor brasileiro poderá travar contato com um elo decisivo da tradição filosófica que vem dos românticos alemães e passa por Schopenhauer, Nietzsche e Brandes. Ao mesmo tempo, poderá julgar o fôlego de um ensaísta que cativou alguns dos nomes centrais da literatura modernista, de Joyce e Beckett a Jorge Luis Borges.
O sonho é o monograma da vida retraça a teia — verbal, conceitual, imagética — que vincula a criação literária de Jorge Luis Borges à filosofia de Arthur Schopenhauer. Do primeiro encontro com as obras do filósofo na Genebra da Primeira Guerra Mundial aos relatos, poemas e ensaios da maturidade em Buenos Aires, Borges não cessa de citar, comentar, destilar a lição idealista do alemão. Unindo crítica e filosofia, Márcio Suzuki mostra como, por essa via, o autor argentino chega à formulação de um “programa fantástico-idealista” e a um modo originalíssimo de figuração narrativa e poética da história — individual, sul-americana, universal. Por fim, num excurso surpreendente, o ensaio cruza a fronteira para perseguir o ressurgimento dos mesmos temas na obra de outro leitor de Schopenhauer, o brasileiro João Guimarães Rosa.
Tomando como ponto de partida a ideia de que Grande Sertão: Veredas pode ser lido como uma reescrita crítica de Os Sertões, este ensaio aborda a obra-prima de Guimarães Rosa enquanto “o romance de formação do Brasil”. De maneira clara e concisa, Willi Bolle mostra como a narrativa rosiana desconstrói e constrói a história do país, em diálogo com os principais ensaios de interpretação de nossa cultura: desde o livro matricial de Euclides da Cunha até os estudos fundamentais de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antonio Candido e outros. Por meio do cruzamento dessas múltiplas perspectivas, aspectos centrais do romance — a narração em forma de rede, o discurso diante do tribunal da História, o sistema jagunço como retrato da criminalização e o pacto com o Demônio como alegoria de um falso contrato social — emergem sob luz nova, revelando um conhecimento específico do processo histórico, contido na forma literária.