Fábula
51 títulos
Deus existe? Qual a origem da vida? Como o planeta Terra se formou? Como alcançar, em vida, a suma felicidade? Os homens não são capazes de responder a tais perguntas, tampouco os gatos do passado e muito menos os cachorros, “criaturas condenadas”. Apenas um gato de grande inteligência dedutiva, afinado ao pensamento moderno, saberia decifrar os mistérios do mundo. Publicado em 1858 pelo historiador e crítico literário francês Hippolyte Taine, ilustrado por Gustave Doré, Vida e opiniões filosóficas de um gato oferece ao leitor o mais delicioso e sutil senso de humor, destilado neste breve tratado de filosofia felina.
República, mas de aspirações imperiais; terra da liberdade, no entanto marcada pela violência e pelo belicismo; pátria-símbolo do individualismo, mas sempre às voltas com a solidão e a massificação: por onde se olhe, os Estados Unidos são um enigma a céu aberto. É justamente essa nação que, pelo ângulo da cultura, Franco Moretti tenta decifrar em Um país distante. Nestas páginas, assinadas por um dos grandes críticos de nossos dias, a indagação do autor conduz os leitores por uma galeria de obras e nomes decisivos das letras, das artes e do cinema norte-americanos, como a poesia de Walt Whitman e a pintura de Andy Warhol, iluminando o consumo de massas, as peças de Arthur Miller e as telas de Edward Hopper, confrontando o anonimato e a solidão, e os filmes do cinema noir e do western, figurando a violência fundadora das sociedades modernas.
Embora Auguste Dupin não seja propriamente um detetive, e sim um jovem cavalheiro parisiense, as três histórias aqui reunidas — “Os assassinatos na rua Morgue” (1841), “O mistério de Marie Rogêt” (1842-43) e “A carta furtada” (1844) —, as únicas protagonizadas por ele, são os marcos inaugurais da chamada “literatura policial”. A influência do personagem de Edgar Allan Poe sobre este gênero literário é admitida por todos os mestres que o sucederam, como Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, e Maurice Leblanc, autor do “ladrão de casaca” Arsène Lupin. Unindo observação aguda e análise imaginativa, Auguste Dupin intriga e surpreende até hoje, fazendo da investigação criminal uma arte sutil e filosófica. O volume apresenta as traduções de Alexandre Hubner e Bernardo Ajzenberg para os contos de Poe, e de Sergio Tellaroli para o posfácio do ensaísta alemão Joachim Kalka, texto escrito especialmente para esta edição.
Publicado em 1965, o cultuado romance O astrágalo, de Albertine Sarrazin (1937-1967), autora nascida em Argel e educada em reformatórios na França, conta a história da jovem delinquente Anne. Ao fugir de uma penitenciária, ela fratura o osso do calcanhar que dá nome ao livro e conhece o ex-presidiário Julien, seu grande amor. Autobiográfico até a medula, e escrito quando a autora estava cumprindo pena por roubar uma garrafa de uísque, O astrágalo retrata uma vida na fronteira entre o submundo e a efervescência boêmia de Paris nos anos 1960, lembrando o Acossado de Godard. Tida como “alma gêmea de Jean Genet”, Albertine Sarrazin foi elogiada por Simone de Beauvoir e influenciou toda uma geração de escritoras com este livro, como Patti Smith, que assina o emocionado prefácio ao volume. Uma frase de Albertine, dita ao juiz em uma de suas condenações, exprime bem a força de sua literatura: “Não tenho nenhum remorso. Quando tiver, eu aviso”.
Crítico de arte inglês conhecido por um sem-número de ensaios e livros como Modos de ver (1972), John Berger (1926-2017) dedicou-se com igual brilhantismo à ficção — seu romance G. mereceu o Booker Prize de 1972. O toldo vermelho de Bolonha, publicado em 2007, faz parte da sequência de livros breves e inclassificáveis que publicou nos últimos anos de vida. Nesta obra luminosa, o autor passeia entre um subúrbio londrino e as arcadas de Bolonha, entre o relato de viagem e o retrato falado de seu tio Edgar — personagem marcante em sua formação, que o ensinou a fugir dos lugares-comuns —, enquanto se permite toda sorte de digressões sobre receitas locais, tecidos de linho, estátuas em terracota, variedades de café ou ainda sobre os vínculos secretos e libertadores entre os grandes sofrimentos e os pequenos prazeres.
Publicado na Argentina em 2024, o primeiro livro de Julieta Correa nasce na convergência entre memória e romance, fato médico e ficção literária, perda e presença, luto e humor, entre os diários da mãe e as anotações da filha. A mãe é Sari, mulher de espírito e de letras, às voltas com uma moléstia sem nome que vai fazendo tabula rasa de suas faculdades, sua verve e sua voz. A filha é a autora de Por que são tão lindos os cavalos?, às voltas com o emprego, a pandemia, o confinamento e, cada vez mais, os sintomas, as consultas, os lapsos e os silêncios de Sari. Aos poucos, vai se impondo à autora a suspeita de que a doença tanto apaga como revela. Revela o teor humano de quem padece e, no caso de Sari, traz à luz a suspeita tantas vezes registrada em seus diários quanto ao caráter efêmero e fugidio da experiência humana, na raiz de sua tragédia e de sua beleza.
A poesia de François Villon não cessa de encantar seus leitores desde que começou a circular, durante a breve e vertiginosa vida de seu autor, na Paris do século XV. Em seus versos, a sabedoria antiga, adquirida na Sorbonne, mistura-se à vida dos estudantes no Quartier Latin ao redor, com toda a sua irreverência. Em cada uma de suas baladas, o giro nobre do ritmo ressalta a urgência das questões que dirige a seus leitores futuros: que sentido pode ter uma vida que o tempo há de tragar, e quem afinal sou eu, François Villon, que conheço tanta coisa, mas não conheço a mim mesmo? Esta nova edição bilíngue traz a consagrada tradução de Sebastião Uchoa Leite, corrige o texto francês à luz da recente edição da Bibliothèque de la Pléiade, e inclui um ensaio magistral de Leo Spitzer sobre uma das criações mais famosas de Villon, a “Balada das damas do tempo ido”.
Ensaio fundamental de Alejo Carpentier (1904-1980), um dos maiores escritores de língua espanhola do século XX, A cidade das colunas analisa as particularidades arquitetônicas e urbanísticas de Havana com um olhar envolvente e perspicaz, observando na capital cubana uma luminosa mistura da cultura europeia com a mestiçagem característica dos trópicos, vista aqui como o cerne da experiência antilhana e, por extensão, latino-americana. Publicado originalmente em 1964 com 12 fotografias de Paolo Gasparini, o texto de Carpentier vem acompanhado nesta edição brasileira por 42 belas imagens do fotógrafo ítalo-venezuelano, contraponto gráfico certeiro para este ensaio que tem o andamento de um poema.
Helenista de mão-cheia e autor de uma “biografia” de Homero, Pierre Judet de La Combe nos propõe uma pergunta: Aquiles ou Ulisses? Aos poucos, porém, vamos percebendo que os protagonistas da Ilíada e da Odisseia não são dois personagens quaisquer, pois cristalizam valores centrais e antitéticos para os gregos da Antiguidade. Falar de Aquiles e Ulisses equivale a penetrar no coração de uma cultura que, por mais familiar que nos pareça, é afinal de contas muito remota. É preciso paciência para decifrá-la, à maneira do arqueólogo que interroga ruínas e fragmentos: o que é, para os antigos, um herói? O que significam para eles, e para nós, a força de Aquiles e a astúcia de Ulisses?
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Edição bilíngue português/alemão
Jogo da forca reúne parte significativa da produção de Christian Morgenstern (1871-1914), poeta modernista alemão conhecido por seus versos curtos em estilo irônico e absurdo. De autoria de alguns dos principais escritores brasileiros, como Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Paulo Mendes Campos e Rubens Rodrigues Torres Filho, as traduções desta coletânea foram publicadas de forma esparsa em jornais, revistas e livros de edição artesanal, e aqui reunidas pela primeira vez após um trabalho de pesquisa de duas décadas levado a cabo pelo organizador Samuel Titan Jr., autor também do posfácio ao volume. A edição, bilíngue alemão-português, conta ainda com um ensaio de Sebastião Uchoa Leite, “No planeta de Morgenstern”, em que ele aborda a obra desse genial autor do início do século XX.
Fritz Mauthner (1849-1923) foi um jornalista e escritor de prestígio em fins do século XIX e inícios do XX, quando lançou-se a um projeto filósofico rebelde e radical, cristalizado nas Contribuições a uma crítica da linguagem (1901-1902) e no Dicionário de filosofia (1910-1924). Nestas obras, ele critica a suposta capacidade da linguagem e da filosofia de representar o mundo, e define os conceitos como uma rede verbal constituída pela metáfora, pela fabulação e pelo mito. Primeira tradução de Mauthner para o português, O avesso das palavras é uma seleta generosa de seus principais textos. Com este volume, organizado por Márcio Suzuki, o leitor brasileiro poderá travar contato com um elo decisivo da tradição filosófica que vem dos românticos alemães e passa por Schopenhauer, Nietzsche e Brandes. Ao mesmo tempo, poderá julgar o fôlego de um ensaísta que cativou alguns dos nomes centrais da literatura modernista, de Joyce e Beckett a Jorge Luis Borges.
Dos primeiros tempos como aprendiz de marchand aos últimos dias de sua breve vida de pintor, Vincent van Gogh (1853-1890) manteve intensa correspondência com seu irmão Theo. São centenas de cartas, em que Van Gogh compartilha decisões e desesperanças; comenta as obras dos pintores que admira e os livros que lê; pede tubos de tinta e reclama da penúria material; mas sobretudo reflete, no calor da hora, sobre suas próprias telas, que por via da escrita se reapresentam aos nossos olhos com toda a vibração que Van Gogh lhes imprimiu. Traduzida diretamente dos originais em holandês e francês, esta nova seleção das Cartas a Theo, com 150 missivas, várias delas inéditas no Brasil, oferece ao leitor uma porta de entrada privilegiada para ingressar no universo do pintor.