Poesia
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Livremente inspirada em memórias familiares e, principalmente, nas cartas escritas por seu avô Fúlvio Abramo nas décadas de 1930 e 1940, em Fiat Lux a poeta mexicana Paula Abramo, principal tradutora de literatura brasileira em seu país, recria desde dentro a intrincada trama de vozes, lugares e acontecimentos que definiu a trajetória de um punhado de homens e mulheres, cujos destinos foram forjados no calor da ação política. Como escreveu Alejandro Zambra, “Depois de ler este livro pequeno, incrível, alucinante e único, os leitores passarão a pensar de forma diferente sobre palavras como dor, identidade ou família. Paula Abramo prova que existem territórios aonde só a poesia pode nos levar”.
Semifinalista do Prêmio Oceanos em 2023, e publicado também na Grécia e na Itália, Adriano, da poeta portuguesa Tatiana Faia, estudiosa da Antiguidade clássica radicada em Oxford, Inglaterra, e autora convidada do Festival Poesia no Centro 2026, chega ao Brasil no catálogo da Editora 34. Combinando lirismo e reflexão, memória e relato, os quatro poemas de fôlego que formam Adriano operam à maneira das camadas de uma escavação arqueológica, na qual a história se descobre atravessada pelas ruas, os lugares e os afetos do presente. O resultado é um livro belo e intenso, no qual os leitores têm a possibilidade — sempre aberta à poesia — de se reconhecerem contemporâneos de vozes que soaram décadas ou milênios atrás.
“Eu sou só eu e somos outros/ e nossa memória anda sempre pra frente/ como uma bicicleta curiosa”, diz um dos poemas de Vida sortida, segundo livro de Bernardo Ceccantini, que estreou na poesia com Na quina das paredes (2017), obra semifinalista do Prêmio Oceanos. É essa curiosidade errante, turbinada por um lirismo ao mesmo tempo sagaz e zombeteiro, a responsável pelos grandes achados poéticos deste livro no qual os tempos cronológicos se misturam e, como observou a crítica Viviana Bosi, “as cenas cotidianas comparecem envolvidas por novo colorido, como se a poesia projetasse um holograma sobre a realidade”.
A poesia de François Villon não cessa de encantar seus leitores desde que começou a circular, durante a breve e vertiginosa vida de seu autor, na Paris do século XV. Em seus versos, a sabedoria antiga, adquirida na Sorbonne, mistura-se à vida dos estudantes no Quartier Latin ao redor, com toda a sua irreverência. Em cada uma de suas baladas, o giro nobre do ritmo ressalta a urgência das questões que dirige a seus leitores futuros: que sentido pode ter uma vida que o tempo há de tragar, e quem afinal sou eu, François Villon, que conheço tanta coisa, mas não conheço a mim mesmo? Esta nova edição bilíngue traz a consagrada tradução de Sebastião Uchoa Leite, corrige o texto francês à luz da recente edição da Bibliothèque de la Pléiade, e inclui um ensaio magistral de Leo Spitzer sobre uma das criações mais famosas de Villon, a “Balada das damas do tempo ido”.
Em Fazer círculos com mãos de ave, Ana Estaregui aprofunda sua pesquisa sobre as interações entre natureza e cultura, humano e mais-que-humano, numa escrita não circunscrita a um eu único. Essa poética nasce de uma visão de mundo e de linguagem menos antropocêntrica e mais próxima das perspectivas indígenas. Outra ideia forte do livro é a de que “são os poemas que procuram as pessoas/ e não o contrário”. É como se, ao expandir as fronteiras da linguagem e da consciência, a poeta pudesse ouvir a voz da natureza: “tenho um pássaro no lugar do coração/ carrego sementes e palha na boca/ ensino espaço/ em troca ele me devolve/ um brevíssimo canto/ regulo o meu ouvido para que ouça”.
O poeta persa Obeyd Zakani (1300-1371) é um dos escritores fundamentais do Oriente Médio, e sua obra mais famosa é Mush-o Gorbeh, aqui traduzida como Os ratos e o gato persa. Nesta fábula em versos rimados, pela primeira vez publicada no Brasil, temos a relação de um poderoso felino com o reino dos ratos, numa impiedosa sátira aos tiranos que, no passado e no presente, sempre se apresentam sob novos disfarces. Vertida ao português por Beto Furquim, que recriou os ritmos e a graça do original, a história é acompanhada pelos belos desenhos do artista Alex Cerveny, que encontrou o manuscrito utilizado como base para esta edição, e por um posfácio de Rodrigo Petronio, que aborda os principais aspectos da vida e obra de Zakani.
Poeta, romancista, contista, ensaísta e tradutora, Cristina Peri Rossi (Montevidéu, 1941) é uma das principais escritoras de língua espanhola do nosso tempo. Com mais de quarenta livros publicados e traduzida para mais de vinte idiomas, recebeu o Prêmio Cervantes em 2021. De um lirismo contundente, seu primeiro livro de poemas, Evoé, lançado em 1971, causou escândalo ao explorar o erotismo lésbico. Seus livros foram censurados, seu nome foi proibido nos meios de comunicação em seu país e, em outubro de 1972, às vésperas do golpe que implantaria a ditadura militar no Uruguai, fugiu para a Europa e exilou-se em Barcelona, onde vive até hoje. Nossa vingança é o amor reúne, pela primeira vez no Brasil, e em edição bilíngue, 150 poemas de seus dezoito livros de poesia, selecionados e traduzidos por Ayelén Medail e Cide Piquet, além do discurso da autora para o Prêmio Cervantes e de um posfácio assinado por Ayelén Medail.
Os poemas recentes de Leonardo Gandolfi têm uma capacidade incomum de situar o próprio ato de ler no centro dos acontecimentos, de modo que a certa altura nos damos conta de que, enquanto lemos o poema, também somos lidos por ele. Talvez seja isso que o crítico Rafael Zacca identificou como a “força de partilha” dessa escrita, que consegue a proeza de ser “inocência e enigma ao mesmo tempo”. De Robinson Crusoé e seus amigos (2021) a este Pote de mel e outros poemas, o que salta à vista é o percurso de um poeta que, por meio de um despojamento corajoso, vertical, e em diálogo com a música popular, a literatura e as artes plásticas, dá um passo a mais em direção a uma experiência para a qual todos os adjetivos são inapropriados. O nome disso, poesia.
Leitura obrigatória do vestibular da Fuvest 2026-29
Nebulosas, de Narcisa Amália, foi publicado originalmente em 1872, quando a autora tinha apenas vinte anos de idade. Atuante desde cedo na imprensa, essa jovem foi então saudada como uma revelação de nossas letras. Os 44 poemas do livro impressionaram pelo diálogo que estabelecia com as três gerações do Romantismo brasileiro, em especial com Castro Alves, e por seu engajamento nas causas sociais. Hoje pouco conhecida, a obra dessa poeta abolicionista, republicana e feminista, pioneira em vários campos, pedia um resgate urgente, o que foi feito no presente volume. Além de um cotejo minucioso com o texto da primeira edição, permitindo recuperar o sentido original dos versos prejudicado pelos erros acumulados em publicações mais recentes, este volume conta com notas, glossários e comentários elaborados para cada um dos poemas do livro, oferecendo chaves de leitura para o seu entendimento. Completam a edição uma apresentação da historiadora Maria de Lourdes Eleutério, o prefácio original da obra e a crítica de Machado de Assis feita no ano de seu lançamento, além de um ensaio e dois poemas posteriores de Narcisa.
Com sete livros publicados, o poeta e geógrafo maranhense Josoaldo Lima Rêgo vem, a cada novo livro, depurando sua técnica e afirmando um estilo próprio. Numa linguagem extremamente concisa e nada confessional, em seus poemas o “eu” sai de cena para dar voz a outros personagens, historicamente silenciados e sob constante ameaça: indígenas, homens e mulheres do campo, mas também animais, plantas, rios e oceanos.
Este livro resgata as contribuições de três escritoras de vanguarda que, nas primeiras décadas do século XX, dialogavam de perto com o que havia de mais inovador na poesia de língua inglesa e foram relegadas, com o correr do tempo, “à margem da margem”. Com vidas tão experimentais quanto seus poemas, Mina Loy, Hope Mirrlees e Nancy Cunard são autoras, respectivamente, de “Canções para Joannes” (1917), “Paris: um poema” (1920) e “Paralaxe” (1925), poemas-longos que, em risco e ambição, são equiparáveis às produções de Ezra Pound e T. S. Eliot, particularmente “The waste land” (1922), o poema-chave da época. Apresentados aqui em edição bilíngue, com minuciosas notas, os poemas são acompanhados de preciosos ensaios nos quais o organizador e tradutor Álvaro A. Antunes contextualiza a vida e a obra das autoras, ao mesmo tempo em que destaca e comenta a radicalidade inerente a cada uma delas.
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Edição bilíngue português/alemão
Jogo da forca reúne parte significativa da produção de Christian Morgenstern (1871-1914), poeta modernista alemão conhecido por seus versos curtos em estilo irônico e absurdo. De autoria de alguns dos principais escritores brasileiros, como Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Paulo Mendes Campos e Rubens Rodrigues Torres Filho, as traduções desta coletânea foram publicadas de forma esparsa em jornais, revistas e livros de edição artesanal, e aqui reunidas pela primeira vez após um trabalho de pesquisa de duas décadas levado a cabo pelo organizador Samuel Titan Jr., autor também do posfácio ao volume. A edição, bilíngue alemão-português, conta ainda com um ensaio de Sebastião Uchoa Leite, “No planeta de Morgenstern”, em que ele aborda a obra desse genial autor do início do século XX.