Literatura Estrangeira
219 títulos
Exilado em Berlim nos anos 1920 junto com muitos outros artistas e escritores russos, Viktor Chklóvski (1893-1984), um dos principais teóricos do Formalismo Russo, apaixonou-se pela jovem escritora Elsa Triolet e passou a lhe enviar cartas diariamente. Ela aceitou as cartas, impondo uma única condição: que elas não falassem de amor. Zoo, ou Cartas não de amor (1923) é o genial romance epistolar resultante dessa correspondência. Num verdadeiro surto criativo, Chklóvski recorre aos mais variados assuntos e formas literárias para lidar com a proibição, mas, não obstante, a paixão reprimida se insinua a todo momento por entre as linhas desta prosa ágil, divertida e emocionada. Inédito no Brasil, Zoo traz a criteriosa tradução de Vadim Nikitin, que se baseou na última edição revista pelo autor, de 1966, e inclui uma introdução do crítico e tradutor Richard Sheldon e um perfil biográfico de Elsa Triolet.
Publicado em 1965, Trens rigorosamente vigiados é o livro mais conhecido de Bohumil Hrabal, um dos maiores escritores tchecos do século XX, em boa parte devido ao filme homônimo de 1966, que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nesta novela, que combina o registro coloquial e a irreverência com momentos de intenso lirismo, acompanhamos as angústias do jovem narrador Miloš Hrma em sua conturbada passagem para a vida adulta. O pano de fundo é o cotidiano de uma pequena estação ferroviária na Tchecoslováquia, onde seus pitorescos funcionários se veem em meio ao movimento de resistência ao nazismo e à brutalidade dos eventos finais da Segunda Guerra Mundial. Este é o primeiro livro de Hrabal publicado no Brasil em tradução direta, a cargo de Luís Carlos Cabral. A edição traz ainda um ensaio biográfico de Šárka Grauová, pesquisadora da Universidade Palacký, da República Tcheca, escrito especialmente para esta edição.
Em 1994, Milan, garoto criado em um subúrbio de Paris, filho de pai francês e mãe ruandesa, se depara com imagens do genocídio em Ruanda exibidas pelo noticiário. Anos depois, decide retornar ao país de origem de sua mãe, Venancia, para compreender seus silêncios e reencontrar as raízes de sua família. Lá conhece Stella, filha de uma sobrevivente dos massacres, e acessa um luto coletivo ainda em curso. Mas se Jacarandá é sobre as feridas abertas do genocídio ruandês, ele é também uma ode à vida. Com escrita poética e sensível, o autor entrelaça memórias e afetos afirmando a força de permanecer vivo em um país cindido, que trilha com coragem os caminhos da reconciliação. Sucesso internacional de crítica e público, Jacarandá é o segundo romance de Gaël Faye, nascido no Burundi, também conhecido por sua trajetória como cantor, compositor e rapper.
Grito, publicado em 1923, é a primeira e mais importante coletânea de textos ficcionais de Lu Xun (1881-1936), o maior expoente do modernismo literário chinês. Ao longo dessas catorze narrativas redigidas entre 1918 e 1922, precedidas de um autobiográfico “Prefácio do autor”, Lu Xun não só compõe um retrato vivo do crepúsculo da dinastia Qing (1644-1911) e do conturbado nascimento da primeira República da China (1912-1949), como tece uma aguda crítica aos valores ancestrais e males arraigados da sociedade chinesa. Sua prosa arrojada, que utiliza a expressiva linguagem coloquial de seu tempo, é aqui criativamente reinventada em português por Giorgio Sinedino, professor da Universidade de Macau, autor também do amplo estudo biográfico que serve de introdução ao volume e de um ensaio com comentários esclarecedores a cada um dos contos de Grito. A edição conta ainda com 77 desenhos de Feng Zikai (1898-1975), artista pioneiro da ilustração moderna na China.
Autor de uma obra que transita entre o romance e o ensaio, vencedor do Prêmio Goncourt em 1992, Patrick Chamoiseau é hoje uma das vozes mais expressivas da literatura francesa. Herdeiro da tradição antilhana de Aimé Césaire e Édouard Glissant, o escritor martinicano, natural de Fort-de-France, é um dos principais teóricos da “crioulidade”, e sua escrita reflete as complexidades linguísticas caribenhas em diálogo com as dinâmicas globais da afrodiáspora e da decolonialidade. Contos dos sábios crioulos, seu primeiro livro de narrativas curtas publicado no Brasil, remonta ao período escravagista das Antilhas. Associando elementos das culturas africana e europeia, e apresentando personagens humanos ou sobrenaturais, estas dez histórias dão voz a um povo que busca driblar a fome, o medo e a vigilância colonial, ao mesmo tempo em que, por desvios e astúcias, transmitem sua mensagem de resistência também aos senhores.
Publicado em 1937, Sanatório sob o signo da clepsidra é o segundo e último livro do prosador e artista gráfico Bruno Schulz (1892-1942), um dos escritores mais originais do século XX, que teve sua carreira interrompida pela barbárie nazista. Nos treze contos de Sanatório, Schulz dá continuação ao projeto artístico iniciado em Lojas de canela (1934), uma tentativa de elevar o cotidiano mais banal — memórias de uma infância pacata numa cidadezinha provinciana — à categoria do mito, utilizando uma prosa densa, atravessada por vislumbres surrealistas e rica em metáforas imprevisíveis. Neste livro, além de uma versão revista da belíssima tradução de Henryk Siewierski, vertida fielmente do original polonês, o leitor encontrará dois textos inéditos de Bruno Schulz: o ensaio “A mitificação do real”, síntese e manifesto de toda a sua produção artística, e “Úndula”, o primeiro conto publicado pelo escritor, descoberto apenas em 2019.
“Um grande mestre da narrativa”, segundo Thomas Mann, Nikolai Leskov (1831-1895) criou uma prosa original e pitoresca, misturando expressões da língua arcaica e da fala popular que ouviu nas inúmeras viagens pelo vasto território russo em seus anos de trabalho como agente comercial, ainda antes de se tornar escritor. Tudo isso pode ser plenamente verificado em Um pequeno engano e outras histórias, que traz oito pequenas obras-primas escritas entre 1863 e 1885. O volume foi organizado e traduzido por Noé Oliveira Policarpo Polli, da Universidade de São Paulo, que assina também as notas, os comentários aos contos e um alentado ensaio sobre os nomes dados por Leskov a suas obras e personagens.
Publicado originalmente em 1987, No degrau de ouro é uma das grandes estreias literárias do século soviético. Joseph Brodsky aclamou sua autora como “a voz mais original e luminosa da prosa russa atual”, e ainda hoje, décadas depois, Tatiana Tolstáia é considerada uma das maiores contistas contemporâneas devido à força desta obra. Aqui ela nos apresenta uma galeria de pessoas comuns, invariavelmente insatisfeitas com a vida, em cujo cotidiano monótono abrem-se janelas para vívidas recordações e devaneios, criando uma atmosfera de conto de fadas em meio à dura realidade da União Soviética. Neste volume, ao longo de seus treze contos, a exuberante prosa de Tolstáia é capturada magistralmente por Tatiana Belinky, ela própria uma grande personalidade de nosso meio literário, nesta que é uma de suas mais belas traduções.
Escrita por Christine de Pizan em 1405, A Cidade das Mulheres é considerada a primeira obra feminista da história da literatura. Nascida em Veneza e radicada na França, Christine recebeu uma educação refinada na corte de Carlos V, em Paris, onde seu pai era médico do rei. Recorrendo à mitologia greco-romana, aos poemas de Ovídio e Virgílio, a episódios da Bíblia e até aos contos de Boccaccio, num verdadeiro compêndio de histórias exemplares, A Cidade das Mulheres aborda temas surpreendentemente modernos, como o assédio masculino, a igualdade entre os sexos, o acesso ao saber e o reconhecimento da autonomia do próprio desejo. Trata-se de obra fundamental na longa trajetória de luta das mulheres por uma existência plena em todos os domínios da cultura e da vida política e social.
O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão e preceptor de Alexandre, o Grande, escreveu cerca de trinta tratados que chegaram até nós, textos que se tornaram verdadeiros pilares do que conhecemos hoje como a ciência moderna. Na área da filosofia, a Ética a Nicômaco talvez seja o mais importante deles. Organizado em dez livros, o tratado parte da ideia de que o objetivo último do ser humano é a felicidade, para em seguida analisar os diferentes âmbitos da vida em que devemos agir de maneira virtuosa, guiados pela ponderação. A presente edição, bilíngue, traz uma nova tradução da Ética aristotélica realizada por André Malta, da Universidade de São Paulo, que, com extrema fidelidade ao original e livre de paráfrases, proporciona aos leitores um contato renovado com esta obra fundante da cultura ocidental.
Contos de Sebastopol reúne três relatos de Lev Tolstói, combinando reportagem e ficção, que descrevem um dos acontecimentos mais dramáticos da Guerra da Crimeia (1854-1855): o cerco à cidade de Sebastopol, em que o exército russo, que havia tomado a Crimeia aos turcos, viu-se sitiado pelas tropas inglesas e francesas. Tolstói era então um jovem oficial que, percorrendo os hospitais de campanha e os fronts de batalha, deixou seu testemunho em uma prosa enxuta e viva, que se afasta dos lugares-comuns heroicos e românticos e busca traçar um retrato fiel da experiência da guerra. O volume traz ainda um texto do historiador inglês Orlando Figes sobre a Guerra da Crimeia, um retrato do escritor feito por um ex-colega de regimento, e um texto do próprio Tolstói em que, décadas depois, ele reflete sobre o absurdo da guerra num verdadeiro libelo pacifista.
A imagem fantasma, de Hervé Guibert (1955-1991), um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea e também fotógrafo profissional, entrelaça narrativas confessionais, crítica de arte, devaneios e teoria da imagem fotográfica, tecendo uma investigação poderosa sobre as múltiplas dimensões da fotografia e seus nexos com o corpo, o tempo, a beleza, o desejo, a escrita e a proximidade da morte. Em mais de sessenta textos breves, repletos de afetos e insights, Guibert — autor de Ao amigo que não me salvou a vida, livro de 1990 considerado precursor no gênero da autoficção e que o transformou da noite para o dia em celebridade —, combina aqui literatura e fotografia de modo extremamente original, questionando o que legitima e sustenta uma imagem, e inserindo-se numa linhagem de pensadores como Susan Sontag, Roland Barthes e André Rouillé.