Prometeu Prisioneiro, de Ésquilo (525-456 a.C.), é uma peça única dentre as tragédias gregas, ao trazer, de forma inédita, seres divinos como protagonistas. A história tem início quando Força, Poder e Hefesto, por ordem de Zeus, acorrentam Prometeu a uma montanha nos confins do planeta. Preso e prestes a ser castigado por ter ensinado o uso do fogo aos humanos, o Titã é visitado pelo coro das Oceânides, por Oceano, por Io e por Hermes, que tentam demovê-lo de seu enfrentamento com o novo chefe do Olimpo. Verdadeiro libelo contra a tirania, a peça é apresentada aqui na esmerada tradução de Trajano Vieira. A edição, bilíngue, inclui ainda um posfácio do tradutor, excertos da crítica e um alentado ensaio do classicista inglês C. J. Herington.
Depois da experiência radical que recolheu em Escute as feras, a antropóloga francesa Nastassja Martin retorna, em A leste dos sonhos, ao Grande Norte e a seu diálogo com os even da península de Kamtchátka. Os “personagens” são os mesmos: Dária, seus filhos e filhas, o pequeno grupo que a seguiu de volta à floresta, que enfrentou a colonização russa da Sibéria e o fim da União Soviética, e agora lida com a pilhagem capitalista do território e a aceleração da mudança climática. Martin põe-se a interrogar as respostas even a essas crises, sendo o retorno ao sonho e ao mito entendidos não como regressão, mas como gesto audaz de captação de um mundo em vertiginosa metamorfose, algo que diz respeito tanto aos even como a cada um de nós.
Publicada em 1857, a novela Ássia é um dos exemplos mais acabados do talento de Ivan Turguêniev, um dos maiores escritores russos, em revelar, sem panfletarismo, as estruturas mais profundas da sociedade de seu país. O enredo aparentemente singelo — em que um nobre russo viajando pela Alemanha faz amizade com um casal de irmãos, também russos, e se apaixona pela irmã mais nova, Ássia — traz, em uma camada mais profunda, uma discussão sobre as relações entre as elites e os servos emancipados. Ao mesmo tempo, o livro aborda o tema do “homem supérfluo”, aquela geração de jovens da nobreza russa que tinha grandes ideais, mas era incapaz de colocá-los em prática. No posfácio ao volume, a tradutora Fátima Bianchi aponta os fortes elementos autobiográficos inscritos na narrativa, e demonstra que esta novela concisa ocupa um lugar central na vida e obra de Turguêniev.
Terceiro e último volume das Obras completas de Rabelais publicadas pela Editora 34, O ciclo de Gargântua e outros escritos apresenta uma verdadeira miscelânea de narrativas, almanaques, cartas, versos, textos em prosa e tratados atribuídos ao autor, quase todos inéditos em português. Do chamado “Ciclo de Gargântua”, que inclui as Grandes crônicas e O verdadeiro Gargântua, publicados em 1532 e 1533, até o Tratado do bom uso de vinho e os 120 bizarros desenhos do livro Sonhos bufonescos de Pantagruel, lançado em 1565, doze anos após a morte de Rabelais, a coletânea oferece ao leitor uma oportunidade de se conhecer as múltiplas facetas desse inimitável humanista francês. Assim como nos volumes anteriores, os variados registros de linguagem de Rabelais são aqui recriados de forma brilhante pelo premiado tradutor Guilherme Gontijo Flores, autor também das notas introdutórias que abrem cada seção do livro.
Este terceiro volume do Teatro completo de Eurípides, bilíngue, com traduções e estudos de Jaa Torrano, professor titular de Língua e Literatura Grega da USP, reúne três peças encenadas entre 424 e 415 a.C. Em As Suplicantes o conflito se instaura entre o dever de dar sepultura apropriada aos guerreiros de Argos que pereceram no ataque a Tebas e o risco de incorrer em novas disputas políticas. Já em Electra, a peça abre com a protagonista vivendo longe do palácio real, após a morte de seu pai Agamêmnon; com a chegada do irmão Orestes, este e Electra tramam uma vingança contra os responsáveis pelo assassinato do pai. Em Héracles, depois de resgatar o pai, a esposa e os filhos que se encontram ameaçados de morte pelo usurpador do trono de Tebas, o herói, que acabara de cumprir o último de seus doze trabalhos, é visitado pela deusa Fúria, causando uma reviravolta surpreendente no enredo da peça.
Conhecido como um dos grandes nomes da corrente formalista da teoria literária, Iuri Tyniánov (1894-1943) foi também um talentoso escritor. Em O tenente Quetange, sua obra mais conhecida, Tyniánov lança mão de capítulos breves e uma linguagem telegráfica para contar uma história ambientada no século XVIII, durante o reinado do tsar Paulo I. Nesta novela satírica o erro de um escrivão em um decreto imperial gera um personagem fictício, o tenente do título, que acaba ganhando vida própria graças aos surreais mecanismos da burocracia russa. Junto à celebrada tradução de Aurora Bernardini e à apresentação de Boris Schnaiderman, este volume traz ainda um posfácio, inédito em português, do escritor e dramaturgo soviético Veniamin Kaviérin.
Organizado por Susan Dick, este volume reúne todos os contos e esquetes de Virginia Woolf (1882-1941), num total de 46 histórias, desde “Phyllis e Rosamond”, de 1906, até “O lugar da aguada”, escrito semanas antes de sua morte. Com sua prosa lírica, súbitas mudanças de perspectiva e mergulhos profundos no mundo interior das personagens, Virginia ajudou a revolucionar a arte de narrar no século XX. A autora inglesa foi também pioneira na causa feminista, ao favorecer o ponto de vista das mulheres para desafiar, com coragem e ironia, os privilégios masculinos. Estes e outros aspectos de sua prosa são analisados no prefácio inédito do poeta Leonardo Fróes, escrito especialmente para esta nova edição, revista e anotada, de sua já consagrada tradução.
Brunetto Latini (c. 1220-1294) foi um importante literato e político de Florença, conterrâneo e mestre de ninguém menos que Dante Alighieri. Em A Retórica, ele traduz e comenta minuciosamente os principais trechos do tratado De inventione, de Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), sobre a arte da retórica. Homem à frente de seu tempo, foi movido por um espírito democratizante que Brunetto se dedicou a traduzir a obra do latim para o idioma italiano, pois tal como Cícero, ele entende que a retórica é “a mais importante das ciências do homem, pela sua capacidade de produzir ambientes harmônicos em que prevalece a razão”. A tradução de Emanuel França de Brito, a primeira feita no Brasil deste clássico pré-renascentista, vem acompanhada de notas e de um alentado estudo introdutório do tradutor, professor de língua e literatura italianas na Universidade Federal Fluminense.
Depois de levar a arte do romance ao seu apogeu com Guerra e paz e Anna Kariênina, Lev Tolstói, no auge de sua fama, dedicou-se a buscar uma forma minimalista, capaz de condensar nas poucas páginas de uma novela toda a riqueza e a complexidade de suas grandes criações. Concebido ao longo de mais de uma década e publicado somente em 1911, um ano após a morte do autor, O cupom falso está estruturado em duas partes simétricas. Se, na primeira, a falsificação de um cupom monetário por um jovem estudante dispara uma sequência de acontecimentos catastróficos envolvendo múltiplos personagens, na segunda parte assistimos ao movimento reverso, em que as ações humanas passam do mal à redenção.
A peça Rei Lear, que estreou em Londres em 1606, é uma das maiores criações de William Shakespeare (1564-1616) e um dos pontos culminantes da dramaturgia mundial. A tragédia do octogenário rei bretão tem início quando este decide abdicar do trono e partilhar seu reino entre as três filhas, equiparando a herança de cada uma ao afeto que lhe demonstram. A trama ganha cor e relevo extraordinários nesta edição bilíngue com a apurada tradução de Rodrigo Lacerda — premiado escritor e tradutor, autor também de um valioso posfácio a iluminar os temas centrais da obra e o contexto da época —, que resultou num texto extremamente fiel ao original e apto a ser lido com beleza e fluência, seja por atores em cena, seja pelo leitor solitário no palco de sua imaginação.
Este volume bilíngue é o segundo dos seis que formam o Teatro completo de Eurípides (c. 480-406 a.C.), coleção que reunirá as dezenove peças do autor que sobreviveram até os nossos dias. O volume II inclui as tragédias Os Heraclidas (c. 430 a.C.), Hipólito (428 a.C.), Andrômaca (c. 425 a.C.) e Hécuba (c. 424 a.C.). Com protagonistas femininas marcantes e a representação de indivíduos que se manifestam “em oposição sistemática contra as ordens estabelecidas”, a obra de Eurípides continua a comover e a interrogar seus leitores cerca de 25 séculos depois de ter sido criada. Como no volume I, a tradução precisa de Jaa Torrano, professor titular de Língua e Literatura Grega da USP, vem acompanhada de estudos introdutórios sobre cada uma das peças.
Considerada a mais importante obra em prosa de Púchkin, o romance histórico A filha do capitão foi publicado em 1836, meses antes da morte do autor em um duelo. O livro narra a história de um jovem oficial que é enviado para uma distante fortaleza do Império Russo e se apaixona pela filha do comandante local, quando irrompe a revolta camponesa de 1773 liderada por Emelian Pugatchóv, um cossaco que reivindicava o poder passando-se pelo falecido tsar Pedro III, marido de Catarina, a Grande. Nesta nova edição desse clássico da literatura, a consagrada tradução de Boris Schnaiderman é complementada por um prefácio de Otto Maria Carpeaux e pelos capítulos iniciais da História de Pugatchóv, de 1834, o único estudo histórico que Púchkin publicou em vida.