Literatura Estrangeira
220 títulos
Trazendo a prosa completa de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881) na comemoração dos 200 anos de seu nascimento, esta coleção reúne 24 volumes, do primeiro romance do autor, Gente pobre (1846), ao último, Os irmãos Karamázov (1880), incluindo seus contos e os textos literários de Diário de um escritor (compilados no volume Contos reunidos), além das Crônicas de Petersburgo.
Um dos últimos livros publicados em vida por Goethe, Os anos de viagem de Wilhelm Meister (1829) — continuação do romance de formação Os anos de aprendizado (1796) —, assoma como sua narrativa mais arrojada e complexa, com uma vasta galeria de personagens, múltiplos fios narrativos e novelas inteiras inseridas na moldura da obra. Em seu veio principal, o livro narra as viagens a pé de Wilhelm e sua formação como médico-cirurgião num contexto social revolucionado pelo advento da máquina a vapor e de novas forças produtivas, temas tratados a fundo neste que foi o romance social mais significativo de seu tempo. Para orientar o leitor no vasto universo do romance — pela primeira vez traduzido no Brasil, por Claudia Abeling — o volume traz sinopses de todos os capítulos e um alentado ensaio de apresentação de Marcus Mazzari, professor da USP e um dos maiores especialistas contemporâneos na obra goetheana.
Deus existe? Qual a origem da vida? Como o planeta Terra se formou? Como alcançar, em vida, a suma felicidade? Os homens não são capazes de responder a tais perguntas, tampouco os gatos do passado e muito menos os cachorros, “criaturas condenadas”. Apenas um gato de grande inteligência dedutiva, afinado ao pensamento moderno, saberia decifrar os mistérios do mundo. Publicado em 1858 pelo historiador e crítico literário francês Hippolyte Taine, ilustrado por Gustave Doré, Vida e opiniões filosóficas de um gato oferece ao leitor o mais delicioso e sutil senso de humor, destilado neste breve tratado de filosofia felina.
No breve tratado A metamorfose das plantas, publicado em 1790, J. W. Goethe teve a genial intuição de não tomar os fenômenos naturais de modo estático, mas sim em sua perpétua mutabilidade, indagando então as leis que regem as suas transformações. O poeta formula então a ideia de morfologia, cuja atenção se volta, no estudo dos organismos vivos, não para as formas fixas, mas para as formas em devir, com fundas implicações para a biologia, a antropologia, a filosofia e a teoria da linguagem. O presente volume conta ainda com um ensaio da tradutora e filósofa portuguesa Maria Filomena Molder, uma seleção de excertos, cartas e textos de Goethe, bem como comentários de outros autores sobre o tratado, de Maimon a Walter Benjamin. Além disso, traz a elegia goethiana “A metamorfose das plantas”, de 1798, e reproduz dez desenhos do autor, cedidos especialmente para esta edição pelo Goethe- und Schiller-Archiv, de Weimar.
Embora Auguste Dupin não seja propriamente um detetive, e sim um jovem cavalheiro parisiense, as três histórias aqui reunidas — “Os assassinatos na rua Morgue” (1841), “O mistério de Marie Rogêt” (1842-43) e “A carta furtada” (1844) —, as únicas protagonizadas por ele, são os marcos inaugurais da chamada “literatura policial”. A influência do personagem de Edgar Allan Poe sobre este gênero literário é admitida por todos os mestres que o sucederam, como Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, e Maurice Leblanc, autor do “ladrão de casaca” Arsène Lupin. Unindo observação aguda e análise imaginativa, Auguste Dupin intriga e surpreende até hoje, fazendo da investigação criminal uma arte sutil e filosófica. O volume apresenta as traduções de Alexandre Hubner e Bernardo Ajzenberg para os contos de Poe, e de Sergio Tellaroli para o posfácio do ensaísta alemão Joachim Kalka, texto escrito especialmente para esta edição.
Entre os Ezechiel, é Antoine quem dá as cartas. Com suas crenças insólitas e seu senso de independência, é a mais indomável de três irmãos. É a ela que recorre sua sobrinha, jovem nascida na periferia de Paris, às voltas com a própria identidade mestiça, para conhecer um pouco mais do passado familiar. Percorrendo cenas de infância em Morne-Galant, na ilha de Guadalupe, passando pela vida em Pointe-à-Pitre e pelo inevitável exílio na metrópole francesa, Antoine recompõe a história de sua família e a do país caribenho nos séculos XX e XXI. Com prosa fluida e intensamente romanesca, mesclando francês clássico a expressões crioulas, Onde o vento faz a curva, premiado romance de estreia da autora franco-guadalupenha Estelle-Sarah Bulle, chega ao Brasil com tradução de Letícia Mei, e esboça um retrato sensível de uma geração de antilhanos que se reinventa na fronteira entre dois mundos.
Irmãos migrantes é um manifesto político-poético contra a barbárie contemporânea das migrações forçadas. Em dezoito capítulos breves, Patrick Chamoiseau, um dos grandes nomes da literatura francesa e caribenha, ergue sua voz contra a violência que marca uma das maiores crises humanitárias do presente. Com escrita de intervenção e inventividade poética, articula urgência ética e criação de linguagem para propor novos imaginários. À brutalidade das fronteiras e ao fechamento dos Estados-nação, opõe a mundialidade de Édouard Glissant como alternativa à globalização do consumo. Inspirado em Pasolini, vê nos vagalumes lampejos de esperança que anunciam futuros possíveis. Nascido na Martinica, em 1953, Chamoiseau é autor de vasta obra incluindo romances, ensaios e contos; esta edição conta com tradução de Prisca Agustoni, posfácio de Vanessa Massoni da Rocha e texto de orelha de Tiganá Santana.
Dando continuidade à publicação do Teatro completo de Eurípides em edições bilíngues, com traduções e estudos de Jaa Torrano, professor titular de Língua e Literatura Grega da USP, este volume V reúne três peças do grande autor trágico: Helena, As Fenícias e Orestes. Helena, que abre este volume, inverte singularmente as perspectivas da tradição: aqui não é a Helena que deu origem à Guerra de Troia, mas um duplo seu, que permaneceu no Egito e ali reencontra o amado Menelau. Em As Fenícias (personagens que formam o coro da tragédia), o pacto entre Etéocles e Polinices, filhos de Édipo e Jocasta, pela alternância no poder em Tebas, cai por terra e leva a funestas consequências. Já Orestes põe em cena outro par de irmãos, Electra e o próprio Orestes, este perseguido pela loucura após ter assassinado a mãe e o padrasto em vingança pela morte do pai, Agamêmnon.
Publicado em 1965, o cultuado romance O astrágalo, de Albertine Sarrazin (1937-1967), autora nascida em Argel e educada em reformatórios na França, conta a história da jovem delinquente Anne. Ao fugir de uma penitenciária, ela fratura o osso do calcanhar que dá nome ao livro e conhece o ex-presidiário Julien, seu grande amor. Autobiográfico até a medula, e escrito quando a autora estava cumprindo pena por roubar uma garrafa de uísque, O astrágalo retrata uma vida na fronteira entre o submundo e a efervescência boêmia de Paris nos anos 1960, lembrando o Acossado de Godard. Tida como “alma gêmea de Jean Genet”, Albertine Sarrazin foi elogiada por Simone de Beauvoir e influenciou toda uma geração de escritoras com este livro, como Patti Smith, que assina o emocionado prefácio ao volume. Uma frase de Albertine, dita ao juiz em uma de suas condenações, exprime bem a força de sua literatura: “Não tenho nenhum remorso. Quando tiver, eu aviso”.
Crítico de arte inglês conhecido por um sem-número de ensaios e livros como Modos de ver (1972), John Berger (1926-2017) dedicou-se com igual brilhantismo à ficção — seu romance G. mereceu o Booker Prize de 1972. O toldo vermelho de Bolonha, publicado em 2007, faz parte da sequência de livros breves e inclassificáveis que publicou nos últimos anos de vida. Nesta obra luminosa, o autor passeia entre um subúrbio londrino e as arcadas de Bolonha, entre o relato de viagem e o retrato falado de seu tio Edgar — personagem marcante em sua formação, que o ensinou a fugir dos lugares-comuns —, enquanto se permite toda sorte de digressões sobre receitas locais, tecidos de linho, estátuas em terracota, variedades de café ou ainda sobre os vínculos secretos e libertadores entre os grandes sofrimentos e os pequenos prazeres.
Publicado na Argentina em 2024, o primeiro livro de Julieta Correa nasce na convergência entre memória e romance, fato médico e ficção literária, perda e presença, luto e humor, entre os diários da mãe e as anotações da filha. A mãe é Sari, mulher de espírito e de letras, às voltas com uma moléstia sem nome que vai fazendo tabula rasa de suas faculdades, sua verve e sua voz. A filha é a autora de Por que são tão lindos os cavalos?, às voltas com o emprego, a pandemia, o confinamento e, cada vez mais, os sintomas, as consultas, os lapsos e os silêncios de Sari. Aos poucos, vai se impondo à autora a suspeita de que a doença tanto apaga como revela. Revela o teor humano de quem padece e, no caso de Sari, traz à luz a suspeita tantas vezes registrada em seus diários quanto ao caráter efêmero e fugidio da experiência humana, na raiz de sua tragédia e de sua beleza.